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Longevidade e carreira: mais anos de vida pedem novos planos

Uma mulher madura de cabelos grisalhos, vestindo um blazer claro e lenço colorido no pescoço, está de pé a liderar uma apresentação numa sala de reuniões corporativa, gesticulando com as mãos. À sua frente, um grupo de profissionais atentos participa da reunião em mesas de madeira, tendo ao fundo um quadro branco repleto de diagramas estratégicos e gráficos.

O Censo 2022 contou 56% mais pessoas com 100 anos ou mais do que o de 2010, mas o roteiro de estudar, trabalhar e se aposentar continua escrito para uma vida mais curta.

Quando Brasília foi inaugurada, em 1960, o brasileiro vivia em média 52 anos. Na década de 1980 a conta chegou a 62, no ano 2000, a 69 e em 2022 a 75, segundo o IBGE, em série reunida pelo Correio Braziliense. Ganhamos mais de duas décadas de vida, e a carreira continua organizada como se nada disso tivesse acontecido.

O script de estudar na juventude, trabalhar por algumas décadas e se aposentar foi desenhado para uma vida mais curta, quando se vivia uma média de 60 e poucos anos. Lynda Gratton e Andrew Scott, professores da London Business School, defendem no livro “The 100-Year Life” (A vida de cem anos) que esse script não cabe numa vida longa e que esticar o tempo de trabalho não resolve.

Partimos dos números brasileiros para entender por que longevidade e carreira precisam ser repensadas juntas e por que a idade deixou de dizer em que etapa alguém está.

Treze mil centenários a mais no Brasil em 12 anos

Uma mulher idosa negra de cabelos curtos grisalhos e óculos sopra a vela acesa de um bolo de aniversário decorado com o número 100. Ela veste uma camisola escura de gola alta e segura um apito festivo de matraquilhos na mão. À mesa, frutas, uma garrafa e louça. Ao fundo, veem-se grandes janelas com caixilharia de madeira e vidro.

Celebrar o envelhecimento e as vivências acumuladas é reconhecer o valor do tempo e da autonomia ao longo dos anos.

O Censo 2022 do IBGE encontrou 37.814 pessoas com 100 anos ou mais no Brasil. Em 2010 eram 24.236, uma alta de 56%, segundo as informações do próprio instituto. Elas ainda são poucas, cerca de 1,9 para cada 10 mil habitantes, mas o grupo cresce muito mais rápido que a população.

Só no Distrito Federal são 300, de acordo com a reportagem do Correio Braziliense citada no início do texto. A vida centenária ainda é exceção, mas quem chega aos 100 anos veio de uma geração em que muita gente passou dos 70, dos 80 e dos 90, e isso mexe com previdência, saúde e planejamento das cidades.

Mexe também com a relação entre longevidade e carreira de quem tem 45 anos hoje e precisa decidir o que fazer com as décadas a mais que o script original não previa.

Uma corrida pela longevidade

The 100-Year Life foi publicado em 2016, pela Bloomsbury, foi finalista do prêmio de melhor livro de negócios do Financial Times e passou de um milhão de exemplares vendidos, em 15 idiomas, segundo a London Business School.

Gratton é psicóloga e Scott é economista, e o livro junta as duas leituras. Em entrevista ao The National, Scott comparou a passagem de uma vida de 70 anos para uma de 100 anos, e disse que uma carreira de 50 anos deixa de ser viável.

Capa do livro The 100-Year Life: Living and Working in an Age of Longevity, de Lynda Gratton e Andrew J. Scott, com o título em destaque" — Fonte: Bloomsbury Publishing

Capa de The 100-Year Life, de Lynda Gratton e Andrew J. Scott. Fonte: Editora Bloombury.

Num exemplo viavel, quem começa a poupar 10% da renda aos 21 anos teria de trabalhar até o fim da casa dos 70 para se aposentar com metade do último salário. O modelo de três etapas, com educação, trabalho e aposentadoria, tem ainda outro limite.

Gratton observa, em entrevista à McKinsey, que ele só prevê duas transições, da escola para o trabalho e do trabalho para a aposentadoria, e que todos fazem as duas na mesma idade. Numa vida de cem anos, os autores apostam em múltiplas etapas, com mais transições e menos sincronia entre as pessoas.

O livro dá nome a algumas dessas novas etapas da vida. Há a do explorador, em que experimentar vale mais do que firmar uma identidade profissional, e a do produtor independente, que monta o próprio negócio sem pretender crescer, mais perto do artesão do que da lógica de expansão permanente.

Para um fundador que vende a empresa aos 50 e não se vê aposentado, a exploração é o período de testar o que vem depois sem a pressão de provar nada. Para um executivo que não quer mais comandar uma estrutura grande, mas quer seguir produzindo, o negócio pequeno e autoral passa a ser uma possibilidade.

Para atravessar tantas etapas, os autores apostam menos no diploma e mais nos chamados ativos intangíveis, entre eles estão algumas habilidades, saúde, condicionamento físico e relações, elementos que ganham mais valor numa vida longa, segundo Gratton na mesma entrevista ao The National.

Dentro das empresas, sempre foi fácil imaginar que quem conhece a idade de alguém conhece a etapa em que a pessoa está. Se desconectamos uma coisa da outra, diz Gratton, dá para estar na universidade aos 60.

A psicóloga Laura Carstensen, professora de Stanford e fundadora do Stanford Center on Longevity, chega à mesma conclusão por outro caminho. O relatório The New Map of Life, do centro, propõe trocar o percurso de educação, trabalho e aposentadoria por intervalos mais curtos e flexíveis de estudo, trabalho, cuidado e lazer.

Carstensen alerta também que quarenta anos de trabalho não bastam para financiar outros trinta de vida, como registrou a Stanford Magazine. É a parte menos confortável da tese sobre longevidade e carreira, porque os anos a mais custam dinheiro e preparo.

A idade parou de dizer em que etapa estamos

Fabiana Scaranzi sorridente com cabelos compridos castanhos está sentada no centro de um sofá cinzento num ambiente de sala de estar bem iluminado, segurando um telemóvel nas mãos. Ela veste uma blusa azul-escura e calças brancas largas. A sala tem sofás confortáveis com almofadas coloridas, e ao fundo há uma estante de parede em madeira com livros, pequenos objetos decorativos e iluminação embutida.

Fabiana Scaranzi é autora do livro “Seus sonhos não têm prazo de validade”.

No Brasil, a ideia já aparece em trajetórias concretas. Uma delas foi contada pela Forbes Brasil em reportagem de Fernanda Almeida sobre a história da jornalista Fabiana Scaranzi. Depois de quase duas décadas na televisão, ela mudou de carreira aos 48 anos. Aos 54 entrou na quarta faculdade, aos 59 se formou em psicologia e aos 61 lançou um livro sobre as próprias viradas.

Na reportagem, Scaranzi descreve a vida como uma sequência de capítulos em que cada um se soma ao anterior e diz que o modelo de três etapas perde o sentido. A fala coincide com a conclusão de Gratton e Scott. Seu percurso passou por balé clássico, modelo internacional, publicidade e telejornalismo, e hoje ela atua como especialista em comportamento feminino. Cada capítulo virou acúmulo para o seguinte.

O caso dela é a parte visível de uma mudança na relação entre longevidade e carreira. Cresce o número de pessoas que chegam aos 60 com décadas de vida pela frente e a transição de carreira depois dos 50 passa a ser uma etapa comum. A idade continua trazendo limites concretos, de saúde e de renda, além do etarismo, que a própria Scaranzi aponta pesar mais sobre as mulheres maduras.

Para entender como a experiência acumulada vira ativo numa nova etapa pode ler também nosso artigo sobre transição de carreira aos 40.

Longevidade e carreira cobram o que ninguém planejou

 Um homem idoso de cabelos e barba brancos, com óculos de armação escura, está sentado à mesa de madeira numa sala acolhedora. Ele apoia o queixo nas mãos entrelaçadas, olhando pensativo para o lado. À sua frente na mesa há uma chávena verde com pires, um caderno aberto e uma pilha de livros amarrados com corda. Ao fundo, o ambiente tem paredes em tons terrosos decoradas com plantas, estantes de livros e um sofá de couro escuro.

A transição de carreira e a maturidade trazem a oportunidade de reavaliar trajetórias e construir um novo olhar sobre o trabalho e a vida.

Os números do Censo não dizem quem chega aos 100 anos com saúde e renda e quem tem uma vida longa prolongada mais cheia de desafios. Gratton e Scott tratam a longevidade como uma dádiva em potencial, que depende do que cada pessoa e cada instituição fazem com o tempo a mais.

Uma carreira pensada para terminar aos 65 deixa um intervalo longo entre a saída e o fim da vida, e esse intervalo precisa de renda e de projeto. Para as empresas, a combinação de longevidade e carreira traz um desafio parecido.

Organizações montadas para receber gente jovem e despedir gente experiente vão lidar com profissionais que querem e precisam continuar, em formatos diferentes do tempo integral, e o relatório de Stanford descreve justamente jornadas reduzidas e saídas graduais.

Envelhecimento e trabalho passam a andar juntos no planejamento e Gratton chega a recomendar que as companhias parem de aposentar gente aos 60. Outra constatação importante é que, uma profissão pode ser apenas uma etapa da vida e o estudo pode voltar quando a urgência de provar valor diminui.

Quem tem 40 anos hoje pode ter ainda 60 anos pela frente, tempo para mais de uma carreira completa, e nenhum roteiro escrito para a expectativa de vida de 1960 vai dizer como usá-lo. Por isso, se você tem hoje entre 40 e 60 anos, é bom começar a pensar sobre isso.


A Viragem trabalha com fundadores e executivos em transições de carreira depois dos 40. Se esse texto fez sentido para onde você está agora, entre em contato.