Anna Shin, CEO da Wishin, explica por que a empresa aposta na contratação de pessoas maduras e o que a experiência de quem tem 40+ traz ao time.
Naomi sempre trabalhou com costura, com máquina, com chão de fábrica. Quando chegou ao desenvolvimento de produto aqui na Wishin, faltava uma peça só: um curso de modelagem de bolsas. Incentivamos, ela fez, e hoje soma ao time com seu repertório único.
Naomi tem mais de 40 anos. Ela faz parte de um grupo que contratamos depois dos 40, dos 45, dos 50 e até dos 65. Faço questão de contar isso porque os números do mercado brasileiro mostram o caminho oposto, e a contratação de pessoas maduras ainda é exceção onde deveria ser rotina.

Quem existe no mercado e quem entra nas empresas
O Brasil tem muita gente com mais de 50 anos: 26% da população, segundo a pesquisa da EY com a Maturi. Mesmo assim, o levantamento de 2022, feito com 191 empresas de 13 setores, mostrou que a maioria delas tem de 6% a 10% de pessoas com mais de 50 anos no quadro, e que 78% se consideram etaristas, com barreiras para contratar nessa faixa.
Um ano depois, a pesquisa foi repetida e mostrou que pouco mudou: 42% das empresas contrataram, em cinco anos, entre 1 e 10 pessoas com 50 anos ou mais, e 9% não contrataram ninguém. Em outra pesquisa, da Vagas.com, a maior parcela das pessoas que relataram discriminação por idade, 56%, tinha entre 40 e 49 anos.
A contratação de pessoas maduras segue encontrando porta fechada e o etarismo no mercado de trabalho vai cobrar um preço, pois a população de 16 a 59 anos deve chegar ao volume máximo em 2034 e depois começar a cair, segundo o IBGE. E a EY e a Maturi projetam que, em 2040, 57% de quem trabalha terá passado dos 45 anos. Ignorar profissionais acima de 45 anos é apostar contra a demografia do país.
Na Wishin, nunca compramos essa ideia.

Contratação de pessoas maduras na prática: três casos
O seu Jaime tem mais de 65 anos e já era aposentado quando chegou. Queria voltar a trabalhar, contribuir, e isso fez todo o sentido para nós.
A Nancy, acima dos 50, entrou no departamento pessoal sem experiência na área. Topamos ensinar os processos do DP. Postura, maturidade e soft skills ela já tinha, e nesse campo não precisou de treinamento nenhum.
A Naomi, que abriu este texto, só precisava de um curso. Nos três casos, faltava somente uma peça técnica. Escolhemos investir nisso e não nos arrependemos.
O que a pesquisa confirma sobre quem tem mais experiência
Na nossa contratação de pessoas maduras, os critérios começam fora do currículo: responsabilidade, estabilidade emocional, vontade de aprender e disposição para somar. A pesquisa acompanha esse olhar.
Quem procura recolocação chega preparado. Na pesquisa da Maturi com 4.840 pessoas de 50 anos ou mais, 76% tinham ensino superior e quase 90% tinham feito algum curso nos últimos anos.
Sobre desempenho, a OCDE, no relatório Promoting an Age-Inclusive Workforce, apresenta argumentos de negócios para maior diversidade etária, como ganhos de produtividade e de lucratividade.
Sobre competências emocionais, uma revisão de 195 estudos, publicada em 2016 por Doerwald e colegas, concluiu que profissionais mais velhos funcionam igual ou um pouco melhor que os mais jovens na maioria delas. Num varejo que lida com gente o dia inteiro, isso pesa muito.
São tendências, e cada pessoa é única. Ainda assim, confirmam o que vejo aqui dentro.
Velocidade de um lado, direção do outro
Acredito no valor da coragem de quem é jovem. O jovem chega mais destemido, até porque às vezes ainda não sabe tudo o que pode dar errado, e isso é ótimo. Com a maturidade vêm outras coisas: tranquilidade, repertório técnico e emocional, visão de contexto. Para mim, a maior potência está no encontro dos dois. O jovem traz velocidade, o maduro traz direção.
Estudos mostram que esse encontro precisa de cuidado. Pesquisadores da Universidade Técnica de Dresden analisaram, ao longo de seis anos, mais de 745 equipes e 8.848 funcionários de três setores. Encontraram vantagens e desvantagens nos times de idades mistas, e identificaram o que faz dar certo: tarefas complexas, clima positivo, pouca discriminação por idade e liderança atenta às diferenças. Nesse mesmo estudo, um treinamento para supervisores reduziu estereótipos e conflitos e aumentou a inovação.
Aqui na Wishin, que passou de cerca de 30 para 90 colaboradores, essa conversa entre gerações acontece todo dia.
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O que a contratação de pessoas maduras pede de quem contrata
Contratar profissionais acima de 45 anos exige aceitar que o encaixe com a vaga pode ser parcial e que parte da formação fica por nossa conta. A Nancy aprendeu os processos do DP porque alguém se dispôs a ensinar. A Naomi fez o curso de modelagem porque incentivamos. O ganho vem do outro lado: responsabilidade, estabilidade e vontade de somar que já chegam formadas.
É assim que montamos o time na Wishin: contratando pela experiência e vendo, a cada contratação, o que ela devolve. Enquanto o etarismo no mercado de trabalho mantém essas pessoas fora dos quadros, quem abre a porta para profissionais mais velhos ganha um time mais completo.
Em 2040, mais da metade de quem trabalha no Brasil terá passado dos 45 anos. Uma empresa que aprende a contratar essas pessoas agora já está montando o time dessa década.
Anna Shin
Cofundadora e CEO da Wishin, marca brasileira de calçados criada em 2011 ao lado da irmã, Joana Shin. Formada em Moda pelo Senac São Paulo, trabalhou por cerca de 10 anos com confecção de roupas antes de fundar a marca.