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Mulheres da Geração X: a aposentadoria deixou de ser um ponto final

Para muitas profissionais entre 45 e 60 anos, continuar trabalhando combina autonomia, trajetória e desejo de seguir participando.

A ideia de que a mulher chega aos 60 anos e deve simplesmente parar de trabalhar já não faz parte do pensamento de muitas profissionais da Geração X. Elas se aproximam da aposentadoria depois de décadas construindo carreira, pagando contas, criando filhos, sustentando casas, liderando equipes e atravessando mudanças que transformaram o mundo corporativo.

Uma pesquisa da Maturi com a NOZ Inteligência, publicado pela Fundação Dom Cabral, realizada com mais de 2 mil pessoas entre 43 e 82 anos, mostra que 70% das mulheres 50+ estão em transição de carreira. Entre elas, 55% buscam trabalhar como consultoras, autônomas ou freelancers e 38% consideram empreender.

Reduzir essa escolha a uma suposta disposição incansável seria um erro. Há mulheres que continuam porque ainda precisam da renda. Há as que continuam porque gostam do que fazem. E, claro, há as que não querem deixar de contribuir para a sociedade enquanto ainda se sentem produtivas.

Em uma transição de carreira, trajetória longa não é vantagem por si só. Ela se torna uma vantagem quando a profissional consegue reconhecer o que viveu, interpretar o momento atual e decidir como transformar essa experiência em um próximo ciclo, seja dentro ou fora das empresas.

Elas chegaram ao mercado para conquistar autonomia

Mulheres sempre trabalharam. O cuidado da casa e da família sustentava a vida, mas não garantia salário, independência nem poder de decisão. Durante muito tempo, o que esteve em disputa foi o reconhecimento econômico e social de um trabalho realizado diariamente, mas raramente valorizado.

A entrada no mercado formal abriu possibilidades que, para muitas mulheres, antes pareciam impensáveis. Ter renda própria significava poder escolher onde e como gastar o próprio dinheiro, construir autonomia e ocupar espaços que até então eram reservados aos homens.

As mulheres da Geração X foram protagonistas dessa passagem. Muitas entraram no mercado porque precisavam e porque queriam ter o próprio dinheiro. Fizeram isso num ambiente com menos opções profissionais, pouca representação feminina em posições de liderança e uma cobrança permanente para provar que eram capazes.

Não começaram com as mesmas possibilidades que as gerações seguintes encontraram. Elas abriram caminho para que outras pudessem escolher mais.

Esse movimento não aconteceu sem custo. A carreira veio acompanhada da tentativa de dar conta de tudo: trabalho, casa, filhos, relacionamento e, muitas vezes, o cuidado dos pais. A mulher passou a ter salário, mas não deixou de ser considerada a principal responsável pela vida doméstica.

Então por que não parar completamente quando a aposentadoria chegar? A resposta passa pelo lugar que essa geração ainda ocupa nas empresas, nas famílias e na sociedade, muitas vezes sem a visibilidade correspondente, como a Viragem mostrou no artigo sobre a Geração X no Brasil.

A escolha de continuar não é igual para todas

Uma mulher madura de cabelos grisalhos está sentada à mesa de uma sala de jantar ou cozinha iluminada, vestindo uma camisola verde-escura. Ela segura um celular em uma mão e escreve num papel apoiado numa prancheta com a outra. Na mesa, há também um notebook aberto, uma cafeteira francesa, uma chávena de café e um tablet. Ao fundo, vê-se um armário de madeira com copos e louças organizados nas prateleiras.

A transição de carreira e o empreendedorismo feminino exigem clareza sobre os próprios valores e uma nova relação com o trabalho, longe do esgotamento e mais alinhada à autonomia.

Quando uma mulher da Geração X diz que não quer se aposentar, a frase pode conter muitas coisas ao mesmo tempo. Pode significar que ela não quer abrir mão de uma renda construída com esforço; ou que o trabalho ainda organiza sua rotina e suas relações. Pode ser o desejo de continuar contribuindo, ensinando e liderando. E pode ser, simplesmente, o prazer de fazer algo que aprendeu a fazer bem.

Também existe uma diferença entre não querer parar e não poder parar. A decisão sobre aposentadoria, não pode ser tratada apenas como uma escolha subjetiva, pois dela dependem renda, oportunidades e segurança.

Para as profissionais de classe média e alta, a margem de escolha tende a ser maior, mas não significa ausência de conflito. A revista Forbes publicou um levantamento que mostra que 48% das mulheres 50+ preferem uma transição para trabalhos remotos ou freelancers. Entre as principais motivações aparecem o equilíbrio entre vida pessoal e profissional, citado por 49%, e a busca por melhores rendimentos, mencionada por 48% das entrevistadas.

Renata Tavares, consultora e mentora de marcas femininas, acompanha de perto esse movimento na Dissemina Ideias. Segundo ela, muitas mulheres entre 40 e 60 anos chegam sem clareza sobre o que querem fazer, mas com uma certeza: o formato anterior deixou de ser sustentável para a saúde, o bem-estar e a convivência familiar.

“Muitas chegam após um processo de adoecimento emocional e, às vezes, também físico, especialmente o burnout, como resultado de muitos limites que foram ignorados e ultrapassados por muito tempo”, afirma Renata.

A decisão por empreender, nesse caso, nasce também da necessidade de voltar a si. Por isso, a aposentadoria pode ser somente uma transição na forma de atuar. Algumas mulheres vão reduzir a carga horária. Outras vão abrir uma consultoria, assumir projetos, dar aulas, atuar como conselheiras ou começar algo novo.

Esse movimento também aparece nos dados sobre empreendedorismo. Segundo dados do Sebrae, em 2025, 2,7 milhões de mulheres com mais de 55 anos são donas de negócios no Brasil. E, quando olhamos para o panorama geral, independente da geração ao qual essa mulher pertence, o salto foi gigante. O empreendedorismo feminino cresceu 27% em dez anos. Segundo o Sebrae, o número de mulheres donas de negócios passou de 8,2 milhões, em 2015, para 10,4 milhões, em 2025.

Os números ajudam a dimensionar o empreendedorismo como alternativa para essas mulheres 50+, que querem transformar experiência, autonomia e desejo de continuar ativa em um novo formato de trabalho.

Quando a experiência precisa ganhar outro nome

Uma mulher de meia-idade com cabelo curto e encaracolado está sentada à mesa de trabalho escura, a usar um computador portátil enquanto segura um copo com sumo verde. A sala tem uma parede verde ao fundo, estantes com livros e plantas, e luz natural que entra por uma janela lateral.

Para muitas profissionais da Geração X, a tecnologia e a experiência acumulada tornam-se aliadas na construção de um novo ciclo profissional com mais autonomia.

Essa mulher começou a vida profissional no mundo analógico e aprendeu a trabalhar no digital. Datilografou, usou telefone fixo, acompanhou a chegada dos computadores, atravessou reestruturações, crises econômicas e novas formas de comunicação. Em muitos casos, precisou fazer pontes entre pessoas, áreas e gerações para que o trabalho avançasse.

Esse percurso não a torna automaticamente melhor nem mais preparada para tudo, mas dá a ela uma leitura de contexto. Ela sabe que uma ferramenta nova pode acelerar uma tarefa, mas não substitui julgamento. Sabe que uma mudança de mercado afeta pessoas concretas. Sabe, ainda, que uma carreira não se resume ao cargo que aparece no currículo.

Renata percebe que o primeiro desafio dessas mulheres costuma ser anterior à abertura do negócio. Elas chegam inseguras, com baixa autoestima e dificuldade para reconhecer as próprias habilidades, conquistas e resultados. Muitas passaram anos recebendo pouco feedback e seguindo no modo automático, sem parar para mapear o que construíram.

Na mentoria, ela começa por esse reconhecimento. Faz um mergulho na trajetória pessoal e profissional, identifica valores, forças, limitações e desejos. Depois, cruza essa leitura com o mercado para encontrar possibilidades de negócio. “O objetivo é que ela consiga se apropriar da sua história e assumir o leme da sua marca e do seu negócio”, diz Renata.

É nesse ponto que a experiência pode virar vantagem. Não por causa da idade em si, mas porque sua trajetória lhe permite antecipar riscos e conectar decisões que parecem isoladas. Para uma líder de pensamento, isso também significa transformar vivência em posicionamento: dar nome ao que aprendeu, organizar uma visão e compartilhá-la com clareza.

O negócio próprio não resolve tudo sozinho

Uma imagem em formato de colagem que reúne vários momentos e retratos. Vemos Renata Tavares e suas mentoradas em diferentes situações, incluindo selfies sorridentes, o visor de uma câmera fotográfica mostrando a mentoria em andamento, mulheres trabalhando com notas adesivas coloridas em sessões de branding e planejamento, e uma mulher sentada ao centro em um estúdio com fundo neutro.

Renata Tavares e as mentoradas da Dissemina Ideias, consultoria estratégica e de branding que fortalece a trajetória feminina no empreendedorismo.

Empreender pode parecer a saída para quem cansou da hierarquia, da falta de reconhecimento ou da rotina corporativa. Mas a autonomia não aparece automaticamente quando chega o CNPJ. Muitas mulheres levam para o próprio negócio a mesma cobrança e a mesma dificuldade de estabelecer limites que enfrentavam na empresa.

Renata vê isso acontecer com frequência entre suas clientes. Mesmo quando a transição é planejada, algumas empreendedoras continuam acumulando funções, resistem a terceirizar tarefas e têm medo de investir em profissionais que poderiam ajudá-las. Em determinado momento, percebem que não basta serem boas no que fazem. Também precisam aprender a ser empresárias, comunicadoras e gestoras.

Na visão dela, uma marca sustentável depende de três Cs: consciência, coerência e consistência. Consciência sobre si e sobre o mercado. Coerência entre o que se promete e o que se entrega. Consistência para manter o negócio, a comunicação e os relacionamentos ao longo do tempo.

Esse processo exige mais do que coragem. Exige leitura de contexto. Uma oportunidade pode parecer boa, mas não combinar com a vida que a profissional quer construir. Uma tendência pode trazer visibilidade, mas não sustentar uma marca. E um negócio pode ter propósito mas não produzir a autonomia desejada.

Continuar trabalhando também é continuar escolhendo

As mulheres da Geração X chegaram à aposentadoria depois de uma longa disputa por autonomia. Para algumas, continuar trabalhando será uma necessidade. Para outras, será prazer, propósito, influência ou uma combinação de tudo isso. Não existe uma resposta única.

O que existe é uma geração que não quer desaparecer quando chega o momento de se aposentar. A mulher da Geração X quer ter uma nova atuação profissional ou uma escolha mais consciente sobre o tempo que ainda irá dedicar ao trabalho.

A vantagem não está em trabalhar para sempre. Está em saber conscientemente o porquê de continuar, em que condições e com qual impacto.

Para essa geração, autonomia é poder fazer essa escolha. Para o mercado, reconhecer isso é parar de confundir idade com obsolescência e começar a enxergar o valor de quem aprendeu a atravessar mudanças sem perder a capacidade de se reinventar.


A Viragem trabalha com fundadores e executivos em transições de carreira depois dos 40. Se esse texto fez sentido para onde você está agora, entre em contato.