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A geração sanduíche está reaprendendo a falar sobre a morte

Entre cuidar dos filhos e se despedir dos pais, quem tem entre 40 e 50 anos hoje enfrenta a finitude com um vocabulário que a geração anterior nunca teve

Em uma palestra do TEDX que já passou de quatro milhões de visualizações, a médica Ana Claudia Quintana Arantes contou que o trabalho dela é entrar pela porta que ninguém quer abrir, a do quarto de quem está morrendo.

Especialista em cuidados paliativos, formada pela FMUSP e com passagem pelo Instituto Pallium, na Argentina, e por Oxford, Ana é autora do livro “A morte é um dia que vale a pena viver” e é uma das incentivadoras para que o tema deixe de ser tabu.

A morte tem sido cada vez mais discutida e quem tem hoje entre 40 e 50 anos, a chamada geração sanduíche, é atravessado por ela de maneira muito singular, pois vê os filhos nascerem e os pais idosos morrerem, muitas vezes, no mesmo período ou em momentos muito próximos.

Esse é um dos motivos pelo qual falar sobre a morte tem se tornado cada vez mais necessário. Topa essa conversa?

Quem é a geração sanduíche?

3 Gerações em uma Foto: O elo invisível que une diferentes gerações (Imagem criada com IA.)
Para Cego Ver: Fotografia em plano detalhe e luz quente do entardecer. No centro da composição, três mãos de idades diferentes se sobrepõem com delicadeza sobre um banco de madeira rústica. No topo, vê-se a mão enrugada e com marcas do tempo de uma pessoa idosa. Ela segura suavemente a mão firme de um adulto no meio, que por sua vez envolve a pequena mãozinha de um bebê, segurando seu dedinho. A cena transmite uma sensação de continuidade, proteção e vínculo familiar.

O termo “Geração Sanduíche” foi criado nos Estados Unidos nos anos 80 e descreve os adultos de meia-idade, pressionados ao mesmo tempo pelas demandas dos pais idosos e dos filhos ainda dependentes.

Um estudo do Ibre/FGV mostrou que, no fim de 2023, quase um milhão de brasileiros entre 35 e 49 anos vivia essa dobradinha, cuidando dos próprios filhos, muitas vezes ainda pequenos porque essa geração teve filhos mais tarde que a dos pais, e cuidando também de pais e avós, que hoje vivem mais tempo.

Uma sobreposição de papéis que a geração anterior não viveu.

O que separa você aos 50 dos seus pais aos 50

Faz sentido que essa sobreposição pese mais agora. A geração de 40 a 50 anos de hoje vive dentro de uma curva de expectativa de vida que os pais dela não experimentaram.

Segundo a Tábua de Mortalidade 2024 do IBGE, a expectativa de vida dos brasileiros chegou a 73,3 anos; e para as mulheres, chega a 79,9, maiores médias historicamente registradas.

Isso dá um fundamento para o clichê de que os 50 anos de hoje equivalem aos 40 de uma geração atrás. Não é impressão; é o resultado de mais saneamento básico, vacinação, pré-natal e acesso à saúde em geral esticando o tempo de vida e, com ele, a oportunidade de fazer novos planos – e concretizá-los -, depois da meia idade.

A geração dos nossos pais, aos 50, em geral, já estava mais perto do fim da vida profissional e com o corpo mais desgastado. Hoje, com a mesma idade, ainda temos uma boa estrada pela frente e esse excedente de tempo traz a pergunta de como usá-lo.

Da distanásia à ortotanásia

O que mudou não foi só o tempo disponível. Ampliou-se também o vocabulário para falar sobre o fim da vida e a morte e também a forma como a medicina lida com elas.

Até pouco tempo atrás, a medicina brasileira convivia sobretudo com a distanásia, o prolongamento artificial da vida de um paciente terminal, mesmo sem chance real de recuperação.

A ortotanásia, que o Conselho Federal de Medicina passou a amparar oficialmente pela Resolução 1.805/2006, propõe outra lógica: deixar a morte acontecer no tempo dela, sem acelerar nem prolongar o processo, com o paciente assistido por cuidados paliativos.

É uma mudança grande no papel do médico, que deixou de ser quem tenta vencer a morte a qualquer custo para se tornar quem ajuda a atravessá-la com o mínimo de sofrimento possível.

Essa mudança de linguagem (e de prática médica) virou política pública faz pouco tempo.

Em maio de 2024, o Ministério da Saúde instituiu a Política Nacional de Cuidados Paliativos, prevendo cerca de 1.300 equipes multiprofissionais pelo país. Até então, o Brasil tinha pouco mais de 200 serviços de cuidado paliativo mapeados, a maioria concentrada no Sudeste e no Sul – uma cobertura bem abaixo da recomendada pela associação europeia do setor.

É dentro desse movimento que o trabalho da Ana Claudia Quintana Arantes ganhou tanto espaço e que apareceram lançamentos recentes como “Enquanto Você Está Aqui”, da jornalista Camila Appel, publicado em 2026 pela Fósforo, com posfácio da própria Ana Claudia.

Presença e cuidado: Obras de Ana Claudia Quintana Arantes e Camila Appel. 
Para cego ver:  Em primeiro plano, sobre uma bancada clara de acabamento refinado, estão dispostos dois livros em suportes metálicos dourados. À esquerda, a capa de Enquanto Você Está Aqui, de Camila Appel, exibe faixas horizontais com tons degradê de azul e alaranjado. À direita, a capa de A Morte É um Dia Que Vale a Pena Viver, de Ana Claudia Quintana Arantes, apresenta fundo branco e o desenho delicado de um ramo com pequenas flores cor-de-rosa. O fundo da imagem traz prateleiras de madeira clara levemente desfocadas.

O livro nasce de um impulso pessoal, o desejo da autora de conversar com a própria mãe sobre envelhecimento e despedida, e se expande para investigar como o Brasil evita falar sobre a finitude.

Appel também assina o blog “Morte sem Tabu”, na Folha de S.Paulo desde 2014, e foi convidada do episódio “Por que falar sobre morte ficou cada vez mais necessário?”, publicado em julho de 2026, do podcast de Michel Alcoforado, “Pra onde vamos”. O episódio em questão discute exatamente essa dificuldade cultural de encarar o fim da vida e levanta hipóteses sobre isso.

A dificuldade tem raiz histórica.

O historiador francês Philippe Ariès descreveu, em “História da Morte no Ocidente” como a relação deste lado do mundo com a morte mudou ao longo dos séculos: da Idade Média, quando o moribundo sabia que ia morrer, se despedia e organizava o próprio ritual de morte; até a morte moderna, que é escondida em hospitais e cercada de eufemismos como “partiu” ou “não está mais entre nós”, e é tratada como falha em vez de processo natural.

O que a geração sanduíche está fazendo agora, com a prática da ortotanásia, os cuidados paliativos e livros como o de Quintana e Appel, é menos uma novidade do que um retorno. Estamos vivendo uma tentativa de reaproximar a morte da vida cotidiana, depois de décadas em que ela ficou trancada atrás de uma porta de hospital.

O segundo arco

Tem ainda mais uma camada nisso tudo, que interessa em particular a quem passou a vida inteira construindo currículo.

Na psicologia analítica, Carl Jung descrevia a primeira metade da vida como um período organizado em torno de tarefas externas: carreira, status, uma posição estável no mundo.

A segunda metade, que ele situava por volta dos 40 anos, exige outra coisa e os critérios que funcionaram até ali param de fazer sentido. Esse momento é menos sobre realização e mais sobre propósito. Jung chamava essa virada de metanoia.

A Viragem já tratou de uma versão específica desse fenômeno em fundadores e executivos: a curva de bem-estar em formato de U que atinge o vale mais fundo por volta dos 47 anos, segundo o economista David Blanchflower. A tese é de que a proximidade da própria finitude é parte do que empurra a reorientação nessa fase da vida.

O que estamos fazendo, na prática, é decidir o que fazer com um excedente de tempo que nenhuma geração anterior teve, enquanto ainda cuida de quem veio antes dela e de quem veio depois. A geração sanduíche de hoje enterra os pais mais tarde do que enterrou os avós e cria os filhos mais tarde do que os pais criaram.

Cuidados paliativos, ortotanásia, publicações, podcasts e muitos outros conteúdos recentes sobre o assunto. Tudo isso é parte do mesmo movimento de aprender a nomear o que os pais preferiram não falar (ou não tiveram oportunidade) já que sobrou tempo para pensar sobre isso com calma.

Ana Claudia Quintana Arantes propõe: encarar a morte de perto não é sinal de fraqueza. É o que sobra depois que a urgência de provar alguma coisa para o mundo começa a perder força. Para quem passou vinte, trinta anos medindo a vida pelo que construiu, esse é um tipo de trabalho novo. E nenhuma geração antes dessa teve tanto tempo de vida disponível para fazê-lo.


A Viragem trabalha com fundadores e executivos em transições de carreira depois dos 40. Se esse texto fez sentido para onde você está agora, entre em contato.