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O sucesso da noite para o dia não existe: o que as bilionárias self-made ensinam sobre tempo

Mulher madura de cabelos grisalhos e cacheados, vestindo blazer escuro, em pé, de frente para um notebook aberto, olha para o relógio no pulso esquerdo. Ambiente de escritório iluminado por luz natural. Ao fundo, outras pessoas conversam e trabalham.

A lista da Forbes 2026 reúne sete bilionárias brasileiras que construíram a própria fortuna. O dado mais importante não é o valor acumulado, mas o tempo necessário para chegar até ele.

Uma plantação não aceita atalhos. Você pode regar mais e adubar melhor e, mesmo com toda a tecnologia disponível, a fruta ainda vai amadurecer no tempo dela. Ninguém questiona isso quando o assunto é uma árvore.

Mas quando o assunto é carreira ou a própria empresa, o próprio dinheiro, a expectativa muda: temos pressa, somos ansiosos e queremos que funcione como um aplicativo, um upgrade que acontece com um clique.

É esse descompasso que sustenta a fantasia do sucesso da noite para o dia. Como se houvesse uma ideia de que existe um atalho e só falta alguém revelar qual é.

A lista Forbes Bilionários Brasileiros de 2026 oferece um bom ponto de partida para olhar esse fenômeno. Entre as 50 mulheres brasileiras com patrimônio de pelo menos R$ 1 bilhão, apenas sete aparecem no recorte das que construíram a própria fortuna. Juntas, elas somam R$ 39,1 bilhões.

Quando a trajetória dessas mulheres é examinada de perto, porém, aparece uma parte menos visível: anos de trabalho, capital acumulado, relações construídas e decisões repetidas sem garantia de resultado.

Neste artigo, mergulhamos nessas histórias para entender o que de fato contribui para a construção de patrimônios sólidos e por que ainda acreditamos no mito do sucesso da noite para o dia.

Ilustração em estilo de gravura em tom dourado com a logomarca da revista Forbes em destaque no topo, exibindo a capa com com o retrato de cinco executivos e empresários, referencia aos Bilionário 2026 que construíram sucesso e não foi da noite para o dia, incluindo mulheres e homens, dispostos lado a lado.

A indústria que vende o sucesso da noite para o dia

Vivemos cercados por promessas de atalho: curso de fim de semana que promete dominar uma habilidade, método que promete multiplicar renda em noventa dias. Essa cultura trata o tempo como um obstáculo a se eliminar, o motor por trás da fantasia do sucesso da noite para o dia.

Mesmo no universo mais associado a crescimento acelerado, o das srtatups, o relógio não anda tão rápido quanto a propaganda promete.

Segundo um levantamento da CB Insights, a média de tempo pra uma startup atingir a marca de unicórnio (valor de mercado acima de US$ 1 bilhão), é de seis anos. No Brasil, o tempo médio é ainda maior: 6,9 anos para a primeira geração de unicórnios nacionais e 7,7 anos para a segunda, segundo a plataforma de inovação Distrito.

Cristina Junqueira, cofundadora do Nubank, que começou como uma start up, e uma das sete bilionárias self-made da lista de 2026, levou oito anos entre a fundação da fintech, em 2013, e a abertura de capital que a tornou bilionária, em 2021.

Então por que ainda acreditamos no sucesso da noite para o dia?

O ritmo que esperamos que as coisas aconteçam hoje foi treinado. Em 2012, o pesquisador Ramesh Sitaraman, da Universidade de Massachusetts em Amherst, conduziu o primeiro grande estudo a medir como a qualidade de um vídeo online muda o comportamento de quem assiste.

Foram analisados 6,7 milhões de espectadores do mundo todo, que somaram 23 milhões de vídeos assistidos em dez dias. A conclusão: o público começa a desistir se o vídeo não inicia em dois segundos, e a partir daí cada segundo extra de espera aumenta a taxa de abandono em cerca de 5,8%.

O dado mais revelador, porém, é outro. Quem tinha a conexão mais rápida era justamente quem perdia a paciência primeiro, enquanto os usuários de celular esperavam bem mais. A explicação dos pesquisadores é que quem está acostumado com carregamento instantâneo desiste assim que essa expectativa não é atendida.

Ou seja, a paciência não encolheu porque o mundo ficou mais lento. Encolheu porque ele ficou mais rápido. E isso foi em 2012, antes do 5G, do Pix, do delivery em quinze minutos e do áudio de WhatsApp no 2x.

A gente leva esse reflexo para a carreira sem perceber. Se a série começa em um segundo, por que a promoção demoraria cinco anos?

As histórias que viram notícia moldam nossa percepção sobre sucesso e tempo

A outra metade da explicação está nas histórias que chegam até nós.

Bill Gates tinha 19 anos quando fundou a Microsoft, Steve Jobs tinha 21 quando criou a Apple, e Mark Zuckerberg, 19 quando lançou o Facebook. São esses os nomes que estampam capa de revista e roteiro de filme e que reforçam a ideia de que sucesso é coisa de gente jovem e rápida.

Mas os dados contam outra história. Economistas do MIT, da Northwestern e do Censo americano analisaram mais de 2,7 milhões de fundadores de empresas nos Estados Unidos e descobriram que a idade média deles na fundação era de 42 anos. Entre as startups de crescimento mais acelerado, subia para 45.

E tem mais: entre as empresas que mais cresceram, fundadores com três anos ou mais de experiência no setor chegavam a esse topo com o dobro da frequência de quem não tinha experiência nenhuma na área.

A exceção parece regra porque é a exceção que vira notícia. Ninguém faz filme sobre a fundadora que passou anos entendendo o mercado, a que deu vários pequenos passos de crescimento até deslanchar ou sobre a empresa que subiu gradativamente a escala organizacional até formar fortuna. Mas, como veremos, é exatamente esse o perfil das bilionárias self-made da lista da Forbes.

De balconista até a liderança do Magazine Luiza, foram décadas de trabalho

Retrato de Luiza Trajano sorrindo levemente em um ambiente corporativo com iluminação natural, tendo o logotipo da Magazine Luiza, empresa que ela foi gestora por mais de 20 anos e visível ao fundo.

A trajetória de Luiza Trajano é provavelmente mais conhecida do que a das outras seis bilionárias self-made da lista. Ainda adolescente, Luiza começou a trabalhar na loja de presentes da tia, batizada de Cristaleira e depois rebatizada Magazine Luiza em homenagem a ela.

Tornou-se funcionária efetiva aos 17 anos e passou por praticamente todos os setores da empresa antes de assumir o comando, em 1991. Ficou à frente da companhia por 25 anos como presidente executiva, até passar o cargo ao filho, Frederico Trajano, em 2016, e segue hoje, aos 78 anos, como presidente do conselho de administração.

Ao todo, são 35 anos de comando direto ou indireto sobre a mesma empresa, dentro de uma relação com o negócio, que já passa de meio século.

Bilionárias self-made não criaram fortuna da noite para o dia

Outra bilionária self-made que seguiu o mesmo padrão é Dulce Pugliese de Godoy Bueno, hoje com participação na Dasa e patrimônio estimado em R$ 4,8 bilhões. Ela e o então marido, Edson de Godoy Bueno, começaram a comprar pequenas clínicas endividadas no início dos anos 1970. A Forbes registra 1972 como marco inicial dessa trajetória, embora outros relatos situem a fundação formal da Amil, sob esse nome, em 1978.

De qualquer forma, entre a primeira clínica comprada e a venda de 90% da Amil pra americana UnitedHealth, em 2012, por US$ 4,9 bilhões, se passaram cerca de quatro décadas.

O casal se divorciou nos anos 1990, mas manteve a sociedade nos negócios, sem dividir o patrimônio, porque, segundo Dulce contou à imprensa na época, não havia lugar melhor pra aplicar aquele dinheiro do que a própria empresa que os dois vinham construindo havia duas décadas. A parceria empresarial durou até a morte de Edson, em 2017.

A trajetória de Dulce foge do mesmo roteiro de sucesso espetacularmente rápido propagado mundo afora. Ela simplesmente permaneceu dentro do mesmo projeto por décadas, sem pressa de mostrar resultado.

O que muda quando ajustamos o relógio com a realidade

Mulher madura em primeiro plano de costas, de pé em um quarto, olhando para seu reflexo jovem como se pudesse voltar no tempo, em um grande espelho emoldurado, onde aparece vestindo um terno executivo escuro com as mãos nos bolsos

Nenhuma dessas histórias nasceu de um golpe de sorte isolado, nem seguiu o roteiro de reviravolta dramática que costuma vender bem. O que aparece, quando se olha com atenção, é tempo: décadas de permanência dentro do mesmo projeto, sustentadas por decisões repetidas ano após ano.

Isso muda a régua com que a gente mede o próprio progresso. Cobrar de si mesmo um resultado em meses, quando o histórico real de quem construiu algo sólido leva anos, é comparar-se com uma versão editada da realidade, a mesma que sustenta a fantasia do sucesso da noite para o dia.

Aliás, reconhecer que uma trajetória de dez, vinte, trinta anos ainda está em construção não é fracasso. A mesma lógica vale pra qualquer fase da vida ou de transição de carreira.

O tempo que uma evolução pede não é atraso: é a mesma paciência que sustentou toda fortuna real, e nenhuma delas apareceu pronta. É o processo funcionando como sempre funcionou, mesmo quando a cultura ao redor promete outra coisa.


A Viragem trabalha com fundadores e executivos em transições de carreira depois dos 40. Se esse texto fez sentido para onde você está agora, entre em contato.