Sem isso, a IA apenas acelera um hábito mais antigo que qualquer chatbot, o de terceirizar a tomada de decisão.
A inteligência artificial pode ampliar o conhecimento de quem já desenvolveu pensamento crítico, porém ela não substitui a capacidade de formular uma boa pergunta, interpretar a resposta e decidir o que fazer com ela. É nesse ponto que a ferramenta deixa de ser apenas um recurso de produtividade e passa a testar a forma como cada profissional assume suas escolhas.
Renato Barros tem mais de 20 anos no mundo corporativo, com passagem pela alta liderança de empresas como Ambev, FSB, Arco. Era o tipo de executivo que sabia fazer a pergunta certa numa sala de reunião ou diante de um comitê. Com essa experiência, fundou A Casa, empresa de advisory e mentoria focada em apoiar fundadores e executivos em fases de transição estrutural e crescimento acelerado.
Quando a inteligência artificial começou a entrar na rotina das empresas, Renato percebeu que não poderia lutar contra essa ferramenta. Aprendeu, na prática, a usá-la e percebeu uma coisa que nenhum curso de prompt engineering ensina: a bagagem profissional ajuda a chegar a uma resposta melhor, mas também permite reconhecer quando ela parece boa e está errada.
É aí que começa a vantagem competitiva com IA. Ela depende menos da ferramenta escolhida do que da capacidade de continuar julgando o que a ferramenta entrega. Caso contrário, a decisão apenas passa a ser terceirizada de um jeito mais rápido e barato.
É uma lógica parecida com a defendida por Juvenal Dias, educador com mais de 30 anos de experiências e o responsável pelo perfil no instagram O Código de Pais, voltado a discussões sobre parentalidade. Para ele, o problema não está em usar IA na educação das crianças e adolescentes, mas em acreditar que ela dispensa o aprendizado de formular uma boa pergunta e o poder de questionar a resposta que volta dela. No trabalho, a lógica é a mesma.
Já exploramos outro ângulo deste assunto no artigo como famílias de elite priorizam ensinar os filhos a pensar diante da IA, em vez de só ensinar a usá-la. Ao discutirmos esse tema, percebemos que a bagagem educacional e profissional funciona como filtro, pois é ela quem permite notar quando a IA devolve algo plausível, mas incompatível com a realidade.
Mas será que basta ter bagagem para usufruir dos benefícios da IA?

O repertório profissional funciona como um filtro, permitindo notar quando a IA devolve algo plausível, mas incompatível com a realidade, um desafio para as novas gerações que crescem usando a tecnologia. (Reprodução: Midjourney)
Ter bagagem não significa ter uma proteção automática contra a IA
Um estudo de Michael Gerlich, da SBS Swiss Business School, ouviu 666 pessoas e encontrou correlação negativa entre uso intenso de IA e pensamento crítico. O mecanismo apontado é o chamado cognitive offloading ou terceirização cognitiva: quando a máquina processa a informação, a pessoa pode deixar de fazer o esforço de analisar e questionar por conta própria.
Ainda segundo o estudo, o efeito aparece com mais força entre participantes mais jovens, que tiveram menos tempo para acumular experiências e praticar o julgamento. A escolaridade formal ajuda, mas não elimina o risco. Afinal, repertório profissional não se resume a diploma. Ele nasce da leitura de contexto, da convivência com pessoas e das consequências de decisões anteriores.
O uso, aliás, também é desigual por geração: pesquisa da Nexus com 2.012 brasileiros, publicada em janeiro de 2026, mostra que 40% das pessoas de 18 a 30 anos já usaram IA pra entender assunto complexo, contra 13% entre os baby boomers, geração dos nascidos entre 1946 e 1964.
São pesquisas diferentes, com públicos diferentes, mas a faixa etária que mais recorre à IA pra entender assunto complexo coincide com a faixa em que o estudo de Gerlich encontrou mais dependência da ferramenta e menos pensamento crítico.
A vantagem competitiva com IA está na capacidade analítica para a decisão
Em um post no LinkedIn, Renato discutiu como o uso excessivo da IA pode apenas atualizar um hábito antigo: o de terceirizar decisões. Muito antes dos chatbots, empresas já transferiam escolhas para um comitê interno, um consultor ou um deck de 80 páginas que ninguém lia até o fim. A ferramenta não inventou esse comportamento. Apenas tornou a terceirização mais barata, veloz e fácil de nos confundir com produtividade.
O risco, na visão dele, não é a máquina tomar o lugar de quem decide. O executivo que sempre entregou análise para evitar a responsabilidade pela escolha agora pode produzir uma resposta em segundos e usá-la como escudo.
No mesmo post Renato cita o professor Pedro Belisário, da ISE Business School, que descreve a decisão de direção como uma sequência: interpretar, julgar, argumentar e então decidir. A IA pode ajudar a organizar informações e desafiar argumentos, mas alguém precisa decidir e responder pela decisão. Para Belisário, julgamento se desenvolve exercitando julgamento.

Renato Barros em um evento corporativo. A experiência acumulada em anos tomando decisões no mundo corporativo é o que lhe permite duvidar das respostas fáceis da IA e manter a vantagem competitiva. (Reprodução: Instagram)
O custo do uso indiscriminado de IA no meio corporativo
Em setembro de 2025, uma pesquisa da BetterUp Labs com o Stanford Social Media Lab, publicada pela Harvard Business Review, batizou de workslop o conteúdo gerado por IA que parece estar pronto, mas que no fundo, não sustenta a entrega final.
Entre 1.150 profissionais entrevistados, 40% haviam recebido workslop no último mês, e cada ocorrência consumiu quase duas horas de retrabalho. O prejuízo estimado passava de nove milhões de dólares por ano numa empresa de dez mil funcionários. Metade dos que receberam workslop declarou que passou a ver quem enviou como menos capaz e menos confiável.
O problema, portanto, aparece quando ninguém revisa o material antes de apertar o botão de enviar. A ferramenta produz um rascunho convincente; mas alguém ainda precisa responder pela qualidade da entrega.
O conhecimento que a IA não alcança
Outro cliente da Viragem que entra nessa conversa é Antonio Napole, da Katalisis, que trabalha com inteligência competitiva. No texto “Por que não tenho medo da IA”, Napole recorre a Friedrich Hayek, que em 1945 descreveu o conhecimento economicamente relevante como disperso, local e tácito.
Um exemplo para mostrar o que isso significa na prática é quando um fornecedor sabe que há um excedente antes de qualquer planilha registrar o dado. Trata-se de um conhecimento local e tácito, construído no contato diário com a realidade. A IA pode até organizar a informação depois que ela é registrada, mas ela não acessa o sinal que ainda circula apenas na experiência de quem está naquele lugar.
Napole também cita Herbert Simon, para quem a abundância de informação produz pobreza de atenção, e Francesco Marconi, que chama de janela pré-notícia o intervalo entre um sinal se tornar perceptível e virar informação pública.
Esses autores defendem que nenhuma ferramenta acessa uma informação que ainda não foi produzida. A IA apenas alcança e organiza o que já é público.
O valor que Napole e Renato defendem está no que acontece antes disso, na leitura de um sinal que ainda não virou dado. É isso que chamamos até aqui de bagagem profissional.
Só que bagagem parada não rende. Ela só sustenta uma vantagem competitiva com IA enquanto o profissional testa a própria certeza em vez de usar a tecnologia somente para confirmá-la.
A decisão continua sendo humana

Troca de ideias e o debate genuíno entre equipes geram o atrito e a construção conjunta que a IA, por concordar de forma imediata, não consegue substituir.
Na rotina de A Casa, Renato admite que usa a IA para consolidar transcrições, organizar informações e apoiar pesquisas. Mas a análise crítica e a tomada de decisão final, no entanto, continuam passando por ele. A importância de fazer isso ficou clara quando Renato precisou enviar uma proposta personalizada para um potencial cliente de A Casa.
Mesmo com acesso a transcrições de reuniões, publicações em redes sociais e um livro escrito pelo próprio cliente, a ferramenta produziu uma proposta fora da realidade de custo e escopo. Renato percebeu o problema antes da apresentação, voltou ao contexto, explicou novamente o que importava e refez o material.
Por isso, quando a IA concorda depressa demais, Renato desconfia. Ele limpa o contexto, reinicia o pedido ou usa outra ferramenta para fazer a crítica. Em vez de buscar confirmação, tenta recriar o debate que teria com um time humano diverso.
“Se estou com uma mente inteligente do meu lado, ela discorda, questiona e quebra o status quo. Quando é com a IA, ela concorda fácil demais, sinal de que está preguiçosa. Eu gosto de debate. Respeitoso, mas debate.”, defende Renato.
O caso dele mostra que nenhuma ferramenta assume a responsabilidade por uma escolha. Ela pode ajudar a organizar o caminho, mas não conhece o peso de cada contexto, o momento de recuar ou o que está em jogo para as pessoas envolvidas. Repertório, nesse cenário, é a capacidade de perceber tudo isso, testar a própria certeza e reconhecer o que a ferramenta não consegue ver.
É por isso que a vantagem competitiva com IA depende de uma postura crítica, não apenas de uma habilidade técnica. Quem decide precisa continuar formulando perguntas, sustentando dúvidas e escolhendo mesmo quando a resposta pronta parece suficiente.
A Viragem trabalha com fundadores e executivos em transições de carreira depois dos 40. Se esse texto fez sentido para onde você está agora, entre em contato.