Entenda por que pensamento crítico, filosofia e criatividade podem ser as habilidades mais valiosas da era da inteligência artificial.
Pensar é a principal característica que diferencia os seres humanos dos animais. Pelo menos era, até a chegada da tecnologia. Pensamos nós, humanidade, que essa novidade seria algo incrível e transformador. E é. Mas nos perdemos no meio do caminho.
Foi Alan Turing quem primeiro colocou em forma de equação uma pergunta perturbadora: as máquinas podem pensar? Em 1950, ele publicou Computing Machinery and Intelligence e propôs o “jogo da imitação”, o que o mundo conheceria como Teste de Turing. Não era um teste de velocidade. Era um teste de raciocínio. Turing entendia que o verdadeiro salto das máquinas não seria processar dados mais rápido, mas simular o pensamento humano de forma tão convincente que ninguém conseguisse distinguir. Sete décadas depois, chegamos lá.

1936: Alan Turing & sua máquina de Turing, que ficou conhecida como “o Jogo da Imitação” – Foto: Elliott & Fry / National Portrait Gallery, Londres.
O século que nos ensinou a executar, não a pensar
Todos os dias somos bombardeados com novidades, informações e cobranças. Se ainda não baixamos a nova rede social. Se ainda não seguimos o influenciador Y. Se ainda não fizemos o curso de IA Z. E a pergunta que não quer calar: como estamos lidando com tudo isso? Estamos questionando essa “revolução” ou vivendo a onda de maneira ansiosa e desesperada?
É aqui que eu queria chegar! E olha, que não estou falando da nova geração que está entrando no mercado. Me refiro a nós, que já estávamos lá quando tudo isso chegou. Que vimos o e-mail substituir o fax, o celular substituir a agenda, o WhatsApp substituir a ligação, e o ChatGPT chegar para substituir, bem, várias coisas ao mesmo tempo. Estamos assustados, acoados. Em algum ponto paramos de questionar e simplesmente nos rendemos. Apenas executamos. Apenas nos desesperamos.
Os números confirmam o que o corpo já sabia: 31% dos adultos brasileiros convivem com ansiedade de forma recorrente, e os atendimentos ambulatoriais por ansiedade no SUS cresceram 14,3% entre 2023 e 2024, segundo uma pesquisa Datafolha de 2024 em parceria com o Ministério da Saúde. Pesquisadores da USP apontam que a hiperconectividade agrava diretamente quadros de ansiedade e dificulta a concentração, afetando inclusive a capacidade de empatia e tolerância. Não é coincidência. É consequência.
Os bilionários e sua “excentricidade” reveladora

Site AD ASTRA/ Imagem reprodução via Catraca Livre
Na contramão de quase toda a humanidade, vem justamente eles. Os bilionários, e, em sua maioria criadores dessas “novidades” que temos que consumir e não questionar.
O caso mais emblemático, podemos dizer ser o de Elon Musk. Em 2014, insatisfeito com a educação dos filhos, ele criou a Ad Astra (Para as estrelas, em latim), dentro do campus da SpaceX em Hawthorne, Califórnia. O Washington Post a descreveu como possivelmente a escola mais exclusiva do mundo. O que se sabe sobre ela, o próprio Musk explicou: “Na Ad Astra não há cursos determinados pelo método tradicional. O mais sensato é que a educação se adapte às suas habilidades e aptidões.”
Mas o diferencial vai além da flexibilidade. A escola é construída em torno de um princípio: aprender a resolver problemas, não a operar ferramentas. Musk usa um exemplo simples: para ensinar como um motor funciona, é mais eficaz desmontá-lo do que matricular a criança num curso de chaves de fenda. Quem aprende o princípio nunca fica desatualizado. Quem aprende a ferramenta, fica obsoleto quando ela muda.
E as ferramentas mudam todo dia.
O currículo também incluía discussão permanente sobre ética e dilemas morais reais: uma fábrica que emprega a cidade inteira também polui o lago que a abastece. O que você faria? Não há resposta certa. O exercício é aprender a pensar. A aposta nesse tipo de educação não é um capricho de um bilionário excêntrico. É uma estratégia cuidadosamente calculada para preparar pessoas capazes de adaptar-se às mudanças e encontrar soluções para desafios que ainda nem existem.
Em 2020, quando os filhos de Musk se formaram, a escola deixou o campus da SpaceX. Mas a filosofia não morreu, ela se expandiu: o diretor fundador Josh Dahn lançou a Astra Nova, escola digital sem fins lucrativos que hoje atende 300 alunos de 45 países. A missão segue a mesma: formar quem sabe raciocinar diante do inédito.
O movimento que a elite viu antes de todo mundo

Jovens herdeiros mudam o foco da educação tradicional – Foto: IA/ Getty Images
A Ad Astra não é caso isolado. Herdeiros das maiores fortunas do planeta estão estudando filosofia estoica, ética aplicada, agricultura regenerativa — ao lado de inteligência artificial e ciência da computação. Não é moda. É uma mudança de percepção sobre o que será essencial no futuro.
Os dados do mercado confirmam a intuição dessas famílias. O Fórum Econômico Mundial projeta que até 2030, 92 milhões de empregos globais serão eliminados pela automação, o que representa 8% da força de trabalho atual. No Brasil, a estimativa é de impacto sobre 14% das ocupações, o equivalente a 16 milhões de pessoas.
O Goldman Sachs identificou ao analisar os empregos com maior exposição à IA que dois terços das funções nos EUA e na Europa têm algum grau de risco de automação. O Banco Mundial observou que, após o lançamento do ChatGPT, as vagas nas ocupações mais expostas à IA caíram em média 12%, com o efeito crescendo de 6% no primeiro ano para 18% no terceiro. Não é ruptura pontual. É uma transformação que acelera à medida que a tecnologia amadurece.
O que sobrevive? Aquilo que a máquina não consegue replicar: julgamento contextual, síntese criativa, capacidade de fazer as perguntas certas. Exatamente o que se aprende estudando filosofia, história, literatura, ética. Adam Smith mostrou que a especialização criava ganhos sem precedentes, E, por 250 anos essa teoria, funcionou. A IA é o ponto de inflexão: ela executa as partes especializadas sozinha. O que resta para o humano é o que não pode ser automatizado: orquestrar, sintetizar, decidir em contextos novos.
O pensamento humanista como resistência. Ou como vantagem?
A diferença entre quem sabe executar uma ferramenta e quem sabe questionar para que ela serve (e quando não usá-la), é exatamente a diferença entre o profissional substituível e o insubstituível.
Susan Wojcicki, que fundou o YouTube, estudou literatura e história. Ben Silbermann, fundador do Pinterest, formou-se em ciência política. Os criadores do Airbnb estudaram design e arte. Não são exceções curiosas. São sinais de que o pensamento amplo sempre esteve na raiz das grandes inovações, talvez invisível para quem olha apenas para a ferramenta, evidente para quem olha para quem a criou.
É preciso entender que em todas as épocas sempre haverá dúvidas, conflitos e novos desafios. Essa é a saga humana. O que muda é o tempo que temos para nos adaptar. E, hoje ele é menor do que nunca. E quem aprendeu apenas a ferramenta, fica para trás quando ela muda.

Foto: Divulgação / David Epstein, conhecido como autor de best-sellers do The New York Times, tanto de ” Range: Why Generalists Triumph in a Specialized World” quanto de “ The Sports Gene”.
Algumas práticas para cultivar o pensamento em vez de apenas consumir tendências:
Leia fora do seu campo. Filosofia, história, biografia, literatura. Não para acumular referências, mas para treinar a capacidade de ver padrões em contextos diferentes. David Epstein, no livro Range, demonstrou que as pessoas com formação mais ampla tendem a resolver problemas complexos com mais eficiência do que especialistas restritos.
Pergunte antes de adotar. A Antes do próximo app, curso ou metodologia: isso resolve um problema real meu, ou estou respondendo ao medo de ficar para trás? A segunda motivação é a que mais consome, e a que menos entrega.
Pratique o desconforto do não saber. A IA responde em segundos. O pensamento leva dias. Reabilitar a tolerância, à incerteza, é atualmente uma das habilidades mais raras e mais valiosas.
Cultive conversas que não chegam a lugar nenhum. Ou melhor: que chegam a lugares que você não esperava. O tipo de conversa que acontece em torno de uma mesa, sem pauta definida, sem entregável. Esse é o espaço onde o pensamento genuíno se forma, e que a era digital tornou quase extintos.
A pergunta que importa
O que vemos hoje reflete o amanhã. A elite mundial já tomou essa decisão pelos filhos. Enquanto o debate público ainda discute STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) versus humanidades, quem tem dinheiro e informação já escolheu.
A questão não é “meu filho deve estudar filosofia?” A questão é: o que essa escolha diz sobre o mundo que esse filho vai herdar? O que ela revela sobre as competências que vão escassear e, portanto, valorizar nas próximas décadas?
Os bilionários que criaram as ferramentas que nos deixam ansiosos estão garantindo que seus filhos não sejam escravizados por elas. Estão ensinando a pensar, a questionar, a raciocinar sobre o inédito. Estão apostando, com toda informação que possuem, que o futuro pertencerá a quem sabe formular a pergunta certa, não a quem sabe operar a resposta mais rápida.
Isso não é excentricidade de bilionário. É o mapa do futuro.
A Viragem trabalha com fundadores e executivos em transições de carreira depois dos 40. Se esse texto fez sentido para onde você está agora, entre em contato.