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Geração X no Brasil não é perdedora e podemos provar

omem maduro de cabelos grisalhos, vestindo terno escuro e camisa social clara, sentado à mesa de um escritório em uma entrevista de emprego, depois de entregar seu CV impresso em mãos, sorrindo calmamente enquanto outro profissional analisa o currículo impresso.

Executivos e empreendedores nascidos entre 1965 e 1980 seguem conduzindo negócios e sustentando famílias, mas raramente transformam esse trabalho em visibilidade.

Quais entregas de peso você realizou este ano, mas ninguém na empresa ficou sabendo? Se isso costuma acontecer com você, talvez você seja mais um integrante da Geração X que tem dificuldade em trabalhar a própria imagem.

Em maio de 2025, a revista britânica The Economist foi estudar esse grupo e chamou a geração X, formada pelos nascidos entre 1965 e 1980, de “a verdadeira geração perdedora”. O argumento reúne três problemas: menos visibilidade cultural, menor acúmulo de riqueza em alguns recortes comparativos e uma aposentadoria sob pressão.

A Viragem foi atrás dos dados brasileiros e o resultado revela novas camadas: a Geração X do Brasil ainda é responsável pelas decisões de peso, em empresas e em casa. Só que isso não vira pauta.

Essa invisibilidade tem consequências para quem lidera hoje. Ignorá-las em conversas sobre liderança e sucessão é deixar de enxergar quem sustenta boa parte da operação.

O rótulo da geração perdedora não conta a história inteira no Brasil

Grupo familiar multigeracional sorrindo reunido em um sofá de madeira em uma área externa com plantas, composto por adultos, uma criança e idosos, em um ambiente acolhedor e iluminado.

Laços e referências: a geração X tem papel central como rede de apoio familiar e intergeracional nas escolhas e trajetórias de vida.

Um estudo americano publicado na revista acadêmica Demography mostra que a renda familiar da geração X cresceu só 16% entre os 36 e os 40 anos, sendo considerada a pior marca entre todas as gerações analisadas. Outro levantamento, do economista Jeremy Horpedahl com dados do Federal Reserve, mostra que, por volta dos 30 anos, millennials e geração Z já acumulam em média mais que o dobro do patrimônio que a geração X tinha na mesma idade.

Todos esses estudos, assim como a reportagem da The Economist citada no início do texto, partem de dados sobretudo norte-americanos e europeus. Eles ajudam a identificar uma pressão geracional, mas não podem ser usados como retrato automático do Brasil.

A experiência brasileira tem uma combinação própria que dá outra camada ao debate.

Parte dessa geração começou a trabalhar em um país marcado pela inflação e alcançou a maturidade profissional depois do Plano Real. Aprendeu a datilografar antes de digitar, passou do telefone fixo ao celular e trocou o currículo impresso pelo PDF e pelo LinkedIn.

Muitos chegaram a cargos de decisão depois de atravessar mudanças sem processos claros ou planos de carreira previsíveis. Por conta de tudo isso, desenvolveu a capacidade de resolver problemas sozinhos. E essa necessidade nem sempre é vista como uma qualidade associada ao grupo, quando deveria.

É esse contexto que molda o estilo profissional da geração X brasileira. O profissional que aprendeu a se virar tende a ser lembrado quando algo dá errado, mas nem sempre é reconhecido quando o problema deixa de existir.

Essa geração é tida como a menos interessada em performar como líder inspirador de palco, mais acostumada a resolver o problema que está na frente, mesmo que isso não renda tanto engajamento quanto um discurso sobre propósito.

Reunião de trabalho em uma sala iluminada com grande janela ao fundo, mostrando uma mulher madura de cabelos grisalhos sentada à mesa conversando com uma equipe atenta de profissionais mais jovens.

A geração X está acostumada com o desafio de conduzir equipes em cenários complexos.

Mas quando analisamos responsabilidade e performance em contextos desafiadores, a geração X brasileira não fica para trás.

Uma pesquisa do Itaú Empresas com o Instituto Locomotiva ouviu 1.001 líderes de PMEs, com faturamento anual entre R$ 360 mil e R$ 50 milhões, nas cinco regiões, entre julho e agosto de 2024. Entre os entrevistados da geração X, 62% disseram estar se preparando para expandir o negócio em 2025. Entre os millennials, o percentual foi de 54%. A pesquisa também identificou maior concentração de decisões entre os profissionais mais velhos: 41% dos líderes da geração X afirmaram assumir sozinhos o comando de uma ou mais áreas, contra 33% dos millennials.

O dado não permite concluir que a geração X comanda a maioria das empresas brasileiras. Ainda assim, mostra um padrão relevante: entre os empreendedores pesquisados, profissionais de 41 a 60 anos combinam planos de crescimento com uma carga maior de decisão individual.

Essa concentração tem um custo. Para 64% dos líderes da geração X ouvidos, conciliar mais tempo com a família e tocar o negócio é um grande desafio. A pesquisa também registrou mais relatos de problemas de saúde relacionados à rotina de trabalho, cansaço e sobrecarga nesse grupo do que entre os millennials.

Geração X é a geração sanduíche: cuida dos pais e dos filhos ao mesmo tempo

Cena em ambiente hospitalar com uma família reunida ao redor de uma paciente idosa acamada: uma mulher adulta de pé com expressão preocupada, uma menina sentada na beira da cama, um homem maduro sentado ao lado, conversando com uma médica de jaleco branco que segura uma prancheta.

Geração X acumula o peso das responsabilidades de cuidado e o suporte familiar nas diferentes fases da vida.

As particularidades da geração X também aparecem na vida familiar. A chamada geração sanduíche reúne adultos que cuidam de filhos e de pais idosos ao mesmo tempo.

Uma análise da Fundação Getúlio Vargas com base em microdados da PNAD Contínua do IBGE identificou, no fim de 2023, 955 mil chefes de domicílio ou cônjuges entre 35 e 49 anos vivendo em lares com filhos de até 24 anos e idosos de 65 anos ou mais.

As mulheres representavam 60,2% desse grupo. Entre 2012 e 2023, o número de mulheres nesse arranjo cresceu 27,1%.

O fenômeno pode ser ainda maior porque cuidar de um pai ou de uma mãe não exige morar na mesma casa. O cuidado envolve gestão de tratamento de saúde, finanças, moradia, etc. Então o número de integrantes da geração X cuidando dos pais idosos pode ser ainda maior.

Por isso, a geração X no Brasil chega à liderança com uma agenda que não termina no escritório. A mesma pessoa que decide sobre contratação, caixa e expansão pode ser quem marca a consulta do pai, paga a escola do filho e reorganiza o orçamento da família.

São entregas relevantes, mas difíceis de contabilizar em avaliações de desempenho ou em conversas de sucessão. E esse tipo de cuidado raramente vira conteúdo de rede social, pois ele simplesmente acontece, todo santo dia, sem holofote.

O custo de ignorar quem mantém a operação funcionando

Faz sentido que a geração X pareça invisível nas buscas do Google e nos memes, mas visibilidade e relevância são medidas diferentes. Afinal, ela não cresceu documentando a própria vida. Ela cresceu resolvendo problema atrás de problema.

Além disso, a geração X no Brasil segue tomando as decisões que sustentam boa parte da economia, sendo essa uma das particularidades que a narrativa do “fracasso” deixa escapar.

Chamar essa geração de “perdedora” simplifica uma realidade que inclui pressão econômica, mudanças no mundo do trabalho e acúmulo do cuidado com os pais e da dependência prolongada dos filhos.

A geração X pode aparecer pouco nas narrativas sobre o futuro do trabalho, mas continua entregando, decidindo e cuidando. Sem tempo nem vontade de transformar isso em conteúdo.

E provavelmente, esse é só o preço de estar ocupado demais fazendo o trabalho de verdade.