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Não maternidade e carreira: o custo da disponibilidade total

Executiva na faixa dos 40 anos sentada em um lounge de aeroporto com xícara de café, observando a vista da janela.

Como o mercado, a família e a sociedade encaram a escolha pela não maternidade e por que isso também molda carreira e identidade.

Toda vez que carreira e maternidade aparecem juntas numa pauta, a conversa costuma partir da mesma questão: o que ter filhos muda na vida profissional de uma mulher? É uma pergunta necessária, mas bastante conhecida. E podemos citar vários aspectos: fala-se de licença maternidade, creche, amamentação, retorno ao trabalho e da penalização que muitas mães enfrentam no mercado.

Já o outro lado da discussão recebe menos atenção: o que a não maternidade muda numa trajetória profissional? E o que o trabalho passa a exigir de uma mulher quando a maternidade não está presente em sua história?

Os dados mais recentes do Censo ajudam a dimensionar o tema. Segundo o Censo Demográfico de 2022 do IBGE, a proporção de mulheres de 50 a 59 anos que chegaram ao fim da vida reprodutiva sem filhos saltou de 11,8% em 2010 para 16,1% em 2022..

A comparação mostra crescimento, mas não permite concluir, sozinha, que todas essas mulheres fizeram uma escolha consciente de permanecer sem filhos: a não maternidade pode decorrer de decisão, circunstância, infertilidade, adiamento ou combinações entre esses fatores. O cuidado com essa diferença é importante, inclusive para não transformar uma categoria estatística em identidade única.

O Censo 2022 também mostrou que, pela primeira vez na história do país, famílias formadas por casais com filhos deixaram de ser maioria: caíram de 56,4% em 2000 para 42% em 2022. O número não mede diretamente a não maternidade, afinal, aqui trata de composição familiar, mas indica que o modelo de família com filhos perdeu exclusividade no país.

Ainda assim, a mudança demográfica não produziu uma conversa pública equivalente. A maternidade tem pautas visíveis, instituições que a reconhecem e acontecimentos que funcionam como notícia. Já a vida sem filhos costuma ser lida como ausência de acontecimento. A mulher segue trabalhando, viajando, assumindo responsabilidades e mudando de cargo. O preço pago para isso acontecer, porém, raramente entra na conta.

A disponibilidade total que o mercado espera de quem opta pela não maternidade

Mulher negra usando capacete branco e colete refletivo laranja, concentrada, analisando plantas de engenharia sobre uma mesa de madeira em um canteiro de obras ao pôr do sol, com outros profissionais ao fundo.

A não maternidade é vista para muitas mulheres como autonomia para construir uma trajetória profissional focada.

O mercado trata a não maternidade como sinônimo de disponibilidade infinita. É como se quem não tem filhos não tivesse vida fora do trabalho e, por tabela, nenhuma razão legítima pra dizer não.

A literatura acadêmica reúne estudos sobre o chamado flexibility stigma, expressão usada para descrever o estigma associado ao uso de arranjos flexíveis de trabalho. O conceito não se refere especificamente a mulheres sem filhos. Ainda assim, ajuda a entender como certas profissionais podem ser enquadradas no modelo da trabalhadora sempre disponível: se não têm filhos, presume-se que não precisam de flexibilidade e que podem assumir mais viagens, horas extras e tarefas de última hora.

A lógica é simples. Trabalhadores que dependem de jornadas mais flexíveis podem ser vistos como menos produtivos ou menos comprometidos. Em uma pesquisa realizada no Reino Unido, Heejung Chung mostrou que 35% dos trabalhadores concordavam com a afirmação de que quem trabalha de forma flexível gera mais trabalho para os colegas. O estudo também indica que o estigma é atravessado por gênero e afeta especialmente mães que precisam recorrer à flexibilidade para cuidar.

Logo, nessa mesma lógica, quando aplicada a quem não tem filhos, funciona ao contrário: sem uma razão socialmente aceita, como cuidar de uma criança, pra justificar um horário mais flexível, a presunção deixa de ser “ela está pedindo demais” e passa a ser “ela nunca vai pedir nada”. Afinal, “ela pode assumir”, “ela topa viajar”; e acaba aprisionada numa identidade única: a de quem só existe pra entregar resultado.

Quando precisa dizer não, a justificativa parece menos legítima. Mas a não maternidade não elimina a vida fora do trabalho; apenas costuma torná-la invisível para a organização.

Socialmente, a cobrança por filhos fica maior a cada aniversário

Fora do escritório, o roteiro se repete com poucas variações: “ainda dá tempo”, “você vai se arrepender”, “e quem vai cuidar de você na velhice?”. São frases ditas pela família, pelas amigas ou colegas. Quase sempre carregada de uma boa intenção, mas o que não as torna menos invasivas.

Esse questionamento cresce justamente a partir dos 40 anos, quando a passagem do tempo reprodutivo costuma intensificar a cobrança e transformar uma decisão íntima em assunto coletivo.

Três mulheres conversam ao redor de uma mesa em uma cafeteria.

Muitas vezes, as cobranças sobre a maternidade vêm de outras mulheres, dentro e fora do ambiente de trabalho.

Em 2024, a atriz Samantha Schmutz, com 45 anos à época, contou em entrevista à CNN Brasil que nunca havia se sentido tão cobrada pela decisão de não ter filhos e afirmou estar “muito resolvida” com a escolha. É um padrão comum: quanto mais segura a mulher está da própria decisão, mais o entorno insiste em reabrir a discussão.

Esse é também o momento em que a cobrança social se mistura com autocobrança profissional. Depois de ouvir, repetidas vezes, que a carreira foi uma compensação pela ausência de filhos, a mulher acaba se questionando sobre isso sozinha. E então uma promoção deixa de ser apenas uma promoção, ela passa a ser a prova de que a vida sem filhos valeu a pena.

A pesquisa de Patrícia Zulato Barbosa e Maria Lúcia Rocha-Coutinho, realizada com mulheres cariocas de classe média que afirmavam não desejar ter filhos, encontrou justamente a tensão entre a construção de uma identidade a partir do modelo da mulher-mãe-profissional e de outras formas mais fluidas de construir essa identidade. A pesquisa justamente registrou como as entrevistadas narravam a pressão para corresponder a expectativas sobre feminilidade, família e realização.

Muitas mulheres childfree relatam algo mais parecido com uma troca de pressão: a maternidade sai de cena, mas entra uma outra exigência velada, a de se ter uma carreira extraordinária o bastante pra justificar a escolha.

A socióloga Amy Blackstone, que estuda a decisão de não ter filhos desde 2008 e escreveu o livro Childfree by Choice (2019), descreve essa escolha como historicamente invisível: algo que as pessoas fazem, mas raramente nomeiam ou discutem abertamente, porque a maternidade segue tratada como padrão, não como uma opção entre outras.

No Brasil, a pesquisadora Ana Luiza de Figueiredo Souza chega a uma conclusão parecida em Ser mãe é fd@: mulheres, (não)maternidade e mídias sociais: mães ou não, todas as mulheres são cobradas e sobrecarregadas socialmente, porém de formas diferentes. É autonomia real disputando espaço com necessidade de aprovação, duas coisas que raramente aparecem separadas na prática.

Livro em destaque sobre uma mesa de madeira rústica, intitulado "Ser Mãe é F*d@", da autora Ana Luiza de Figueiredo Souza, acompanhado de uma xícara de café e um caderno de anotações com caneta ao lado.

Livro Ser Mãe é F*d@”, da autora Ana Luiza de Figueiredo Souza traz reflexões essenciais sobre as pressões sociais da maternidade, os discursos digitais e a liberdade de escolha das mulheres.

Uma carreira não precisa justificar uma vida

A não maternidade não é uma carreira em si, nem precisa ser compensada por uma carreira extraordinária. Para algumas mulheres, ela é uma decisão; para outras, uma circunstância; para muitas, uma história que mudou ao longo do tempo. A diferença entre essas experiências merece ser preservada, em vez de ser empurrada para uma única caixinha.

Isso também muda o que se espera das empresas. Uma política de flexibilidade não deveria existir apenas para mães, embora elas enfrentem impactos específicos e documentados. Ela precisa reconhecer que adultos têm responsabilidades, vínculos, limites de saúde, projetos pessoais e diferentes formas de organizar o tempo.

E isso vale um aprendizado, inclusive pra quem teve filhos: construir carreira e identidade a partir de valores próprios funciona melhor do que construir em resposta a uma expectativa alheia, seja ela “ter filhos” ou “não precisar deles pra provar valor”.

O que conecta os pontos anteriores é um convite parecido com o que nos move aqui no Portal Viragem: revisitar a própria história profissional sem o filtro do que “deveria” ter acontecido, seja isso a maternidade ou a carreira extraordinária cobrada como compensação.

Para mulheres com mais de 40 anos, rever essa lógica pode ser uma forma de separar desejo próprio de aprovação externa. A não maternidade já faz parte da vida de muitas mulheres. O que ainda falta é tratá-la como experiência social concreta, com linguagem mais cuidadosa e menos curiosidade invasiva. Sem transformá-la em desvio, privilégio automático ou explicação para cada sucesso profissional.

Mulher de cabelos grisalhos presos em um coque, vestindo suéter claro, sentada em frente a um notebook em uma mesa com flores e café, observando o pôr do sol na cidade através da janela de um apartamento de alto padrão.

Paz, estabilidade e maturidade: muitas mulheres maduras têm encontrado o conforto de abraçar a própria rotina e tomado decisões com serenidade e menos cobrança externa