À frente da marca de calçados Wishin, a empresária Anna Shin representa uma nova geração de mulheres coreanas que estão transformando o varejo com um olhar feminino e decisões práticas, dentro e fora da comunidade.
De única mulher na sala à CEO de uma marca em expansão
Quando Anna Shin começou a empreender, o mercado de calçados era dominado por homens. As feiras de negócios pareciam eventos automotivos: os compradores, produtores e donos de fábrica eram quase todos homens — e as mulheres estavam ali apenas para apresentar produtos.
“Eu ia às feiras e era a única mulher na sala. Quando experimentava os sapatos e dizia que algo não estava confortável, eles achavam estranho. Mas era uma percepção que ninguém ali tinha, porque não eram eles que usavam”, relembra Anna.
Foi dessa vivência que surgiu a Wishin, marca que ela criou ao lado da irmã Joana Shin em 2011. O objetivo era desenvolver sapatos que unissem estética e conforto real — uma abordagem inédita em um setor acostumado a pensar o produto sob a ótica masculina.
O olhar de quem entende o uso
A leitura de mercado de Anna sempre partiu da experiência real de quem consome.
“Desde o início, pedíamos aos fornecedores para simplificar o design, tirar o que era supérfluo e priorizar o conforto. No começo, eles achavam estranho, mas era o que as nossas clientes queriam”, explica.
Hoje, a Wishin conta com quatro lojas próprias, cerca de 100 funcionários e uma produção anual próxima de 200 mil pares. O crescimento é sustentado e está ancorado em uma visão de negócio prática, centrada no comportamento da mulher real.

Da tradição familiar à liderança feminina
A trajetória de Anna reflete uma mudança que começa dentro da própria comunidade coreana no Brasil.
Desde os anos 1970, as mulheres coreanas estão à frente de confecções e lojas em bairros como o Bom Retiro e o Brás — embora o reconhecimento público, na maioria das vezes, tenha ficado com os homens.
“Minha mãe sempre foi muito forte. Ela fazia o corre, cuidava da casa e trabalhava. Eu cresci vendo isso”, diz Anna.
Um estudo da Faculdade de Tecnologia de Americana (Fatec) reforça esse contexto: o polo do Bom Retiro é responsável por 55% da produção nacional de moda feminina, e 43% dos empregos formais da região são ocupados por mulheres — muitas delas coreanas que tocam os negócios de forma silenciosa e constante.
Anna faz parte da geração que começa a mudar esse cenário, assumindo publicamente cargos de liderança e representando o avanço das mulheres coreanas em posições executivas.
Uma mudança geracional no varejo
“Muitos donos de fábrica ainda são homens, mas as filhas estão assumindo. Essa transição está acontecendo naturalmente. As mulheres estão trazendo uma visão diferente, mais próxima do consumidor e mais aberta à mudança”, explica Anna.
Para ela, o ambiente digital também tem papel fundamental nessa transformação.
“As marcas hoje têm rosto. As pessoas querem saber quem está por trás, e isso tem dado espaço para que mais mulheres se apresentem e liderem com autenticidade.”
Gestão com propósito e resultado
A Wishin é exemplo desse novo formato de empresa. Em 2024, a marca registrou crescimento de 330% no faturamento em relação a 2021, combinando expansão no e-commerce, fortalecimento das lojas físicas e uma experiência de compra que valoriza o atendimento humano.
A trajetória de Anna Shin sintetiza uma mudança que atravessa gerações: o empreendedorismo que antes acontecia nos bastidores agora ganha visibilidade, voz e direção.
“Eu cresci vendo mulheres trabalhando, resolvendo e tomando decisão. Então, quando dizem que esse espaço não é nosso, eu não entendo. Sempre foi”, conclui.