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Reinvenção de carreira é a nova regra, não é fracasso

Ter duas, três ou mais profissões ao longo da vida deixou de ser exceção. Minha própria reinvenção de carreira, de militar a executivo, ajuda a entender por quê.

Eu tinha 15 anos quando saí de casa para estudar no Colégio Naval, em Angra dos Reis. Por lá cheguei a ser presidente do grêmio estudantil, cargo que um dia me colocou cantando Faroeste Caboclo, do Legião Urbana, na frente da minha turma e do comandante. Guarde essa cena porque ela volta daqui a pouco.

Na época, eu não fazia ideia de que aquele episódio era o primeiro capítulo de uma reinvenção de carreira que se repetiria, sob formas diferentes, pelas próximas três décadas.

Aos 18 anos, larguei a farda. Vivi uma decepção que me fez entender que aquele caminho não era o meu. Voltei para a casa dos meus pais e passei um ano me reorganizando antes de entrar no Instituto Militar de Engenharia (IME).

Por muito tempo, contei essa história como uma anedota de juventude, aquele momento em que um garoto de 18 anos precisou dar um passo atrás.

Mas quanto mais eu observo o mercado de trabalho, mais entendo que aquilo não foi um desvio de rota. Foi o primeiro capítulo de um padrão que hoje tem nome, dado e tendência: a reinvenção de carreira deixou de ser exceção para se tornar a norma.

O que os números dizem sobre trocar de profissão

Uma pesquisa da plataforma de educação EdX com americanos entre 25 e 44 anos descobriu que 29% deles já mudaram completamente de área de atuação desde o primeiro emprego depois da faculdade. Ou seja, quase um em cada três e não por acaso: o mesmo levantamento mostra que boa parte dessas transições de carreira nasce do desejo de um salário melhor ou do interesse genuíno por outro campo, não de fracasso em lugar nenhum.

No primeiro momento, isso pode parecer um fenômeno de gente jovem e ainda instável, mas os números do governo americano indicam o contrário.

Um levantamento do Bureau of Labor Statistics, órgão do Departamento do Trabalho dos Estados Unidos, acompanhou uma geração inteira ao longo de mais de quatro décadas e chegou a uma média de 12,7 empregos entre os 18 e os 56 anos, com quase metade deles concentrada entre os 18 e os 24 anos.

Ou seja: a instabilidade do início de carreira não é uma fase que se supera, mas o ensaio de um padrão de mudança de carreira que se repete a vida inteira, só que em ciclos mais espaçados e, certamente, com outros objetivos.

Uma tendência estrutural, não um acidente de geração

Lynda Gratton e Andrew Scott, professores da London Business School, sistematizaram essa mudança no livro *The 100-Year Life.*

Os autores explicam que com o aumento da expectativa de vida, o modelo tradicional de educação, seguida de trabalho e depois aposentadoria, está se desfazendo para dar lugar a uma vida em múltiplos estágios, na qual ter uma segunda carreira (ou uma terceira) deixa de ser desvio e passa a ser еstrutura.

Uma pesquisa do LinkedIn com mais de 6 mil profissionais de 25 a 33 anos mostra esse efeito já em curso, e mais cedo do que se esperava: 75% deles relataram uma espécie de balanço de carreira antecipado, com início médio aos 27 anos. Até essa idade, 36% já tinham mudado de carreira por completo. O ponto de virada que antes se associava aos 40 anos está migrando para o início da vida profissional.

Os dados apontam para a mesma direção: o modelo de uma carreira única e linear, do primeiro ao último emprego, está cada vez mais distante da realidade de quem está trabalhando hoje.

E no Brasil, o movimento já chegou aos executivos

Isso não é só um fenômeno americano ou europeu. Uma pesquisa da consultoria PSA com 301 executivos brasileiros de diferentes níveis hierárquicos encontrou o mesmo padrão por aqui: 55,2% já mudaram de área de atuação ou profissão por vontade própria e outros 21,4% pretendem fazer o mesmo. Entre esse grupo, 83,1% já consideraram empreender em algum momento.

O próprio estudo resume o diagnóstico numa frase que mostra a mesma conclusão de outras pesquisas: a ideia de carreira linear e vitalícia perdeu espaço.

Minha reinvenção de carreira como estudo de caso

Voltando ao Colégio Naval: hoje eu leio aquele momento aos 18 anos morando com os meus pais como o primeiro turnaround da minha vida, não como um tropeço isolado.

Depois dele, vieram o Instituto Militar de Engenharia; dez anos de Ambev (de trainee global a sócio e diretor); um MBA executivo no IESE, na Espanha; passagens pelo QuintoAndar e como COO da Armac; a liderança de operações no G4 Educação; o cargo de CHRO na FSB Holding e, agora, A Casa, o ecossistema de advisory, headhunting e formação para fundadores e CEOs que fundei em 2026.

Cada uma dessas transições, na época, parecia um recomeço isolado motivado por uma decisão pessoal, quase solitária. Só de fora, olhando o conjunto, dá para ver que era outra coisa: um padrão de reinvenção de carreira que se repetiu em pelo menos cinco momentos diferentes da minha vida. E os dados confirmam que esse padrão não é uma peculiaridade minha, mas um movimento comum, que segue crescendo.

Da casa que deixei à Casa que construí

Se a reinvenção de carreira é a regra e não a exceção, o erro não é mudar de área, de cargo ou de setor mais de uma vez na vida. O erro é continuar avaliando essas mudanças pela régua de uma geração que fazia carreira em uma única empresa, do primeiro emprego à aposentadoria. Essa régua já não corresponde à realidade de quase ninguém.

Saber disso tira um peso e muda a forma de decidir. Quando uma trajetória deixa de fazer sentido, a pergunta relevante não é “onde eu errei”, é “o que essa virada está me preparando para fazer a seguir”.

Foi assim aos 18, saindo da Marinha. Continua sendo assim hoje, décadas depois, com A Casa, e em cada momento em que decidi mudar de lugar antes que a inércia decidisse por mim.

Aos 18, saí de casa achando que aquilo era um fracasso a esconder. Hoje, construo A Casa sabendo que reinventar não pesa mais como antes, porque, a essa altura, já aprendi que mudar de ideia faz parte do jogo.


Renato Barros

Advisor | Fundador da A Casa | Arquiteto de transformação para donos de empresa que cresceram mais rápido que a própria estrutura