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Maternidade e carreira: será que ter filhos mais tarde resolve o problema?

O que os dados mostram sobre profissionais que decidiram ter filhos depois dos 35 pensando em proteger o crescimento no trabalho

Outro dia eu estava fechando a mala pra viajar para São Paulo, onde atenderia alguns clientes, até que o Bernardo, meu filho mais novo, apareceu na porta do quarto e perguntou: “mãe, só Belo Horizonte não é suficiente?”

Ele tem 7 anos, então não sabe o que é agenda comercial, não faz ideia de que cliente de hotelaria não fecha contrato por videochamada. Sabe só que a mãe estava saindo.

Eu expliquei o óbvio (acho até que expliquei mais pra mim mesma), ele não entendeu muito, calçou o tênis e foi pra escola. Eu fui pro táxi com o coração partido, mas viajei do mesmo jeito. Isso não é novidade nenhuma pra quem me acompanha.

O que é novidade é o que eu fui descobrir depois, procurando dado, porque eu gosto de números e essa conta entre maternidade e carreira não para de chegar.

O adiamento que a gente acha que resolve

Existe uma ideia circulando, meio como conselho de tia, meio como estratégia de RH: espera, constrói carreira primeiro, tem filho depois, assim a maternidade não atrapalha. E o Brasil está, de fato, seguindo esse roteiro.

Segundo o IBGE, a idade média em que a mulher brasileira tem seu primeiro filho subiu de 26,3 anos em 2000 para 28,1 anos em 2022. A idade média de casamento também subiu, de 24,9 anos em 2004 para 29,3 anos em 2024. E a taxa de fecundidade despencou pra 1,55 filho por mulher, a menor da história do país. O IBGE já projeta que, em 2070, a idade média do primeiro filho pode passar dos 34 anos.

E quando olhamos para a vida real, faz muito sentido, porque implica em maior escolaridade, mais mulher no mercado de trabalho, mais planejamento familiar. O problema é a lógica por trás.

Adiar a maternidade parte do pressuposto de que ela protege o equilíbrio entre maternidade e carreira. Mas não é bem assim.

A conta entre maternidade e carreira chega de qualquer jeito

Um estudo de Cecília Machado e Valdemar Neto sobre o mercado de trabalho brasileiro mostrou que o emprego e o salário da mulher caem, em média, 50% e 36% respectivamente, 48 meses depois do nascimento do filho. Isso não é o puerpério, é quase quatro anos de carreira sendo corroída.

Mesmo em setores como STEM, considerados mais protegidos, a queda ainda é de 33% no emprego e 29% no salário. Essa é a penalidade da maternidade: não é um imposto sobre os primeiros seis meses, é um imposto sobre uma fase inteira da vida profissional.

E essa penalidade é estrutural. Vem da licença de 120 dias pra mulher, vem de quem larga o emprego pra assumir a criança, vem de quem cuida da casa mesmo trabalhando o mesmo tanto que o marido. Atrasar o filho pra depois dos 30, dos 35, não muda essa conta. Só muda em que década da vida da mulher ela vai pagar o boleto.

A década errada pra pagar essa conta

E é aqui que o negócio fica realmente incômodo. No Brasil, a idade média dos CEOs subiu de 51,5 para 54,9 anos entre 2015 e 2025; a dos presidentes de conselho, de 56,3 para 59,5.

Considerando esses dados, é por volta dos 40 anos que começa a fase de subida na escada do organograma para aos 50 e poucos estar mais perto do topo. É uma década decisiva.

E é exatamente nessa década que a mulher que atrasou a maternidade pra “proteger a carreira” está pagando a penalidade dos quatro anos seguintes ao parto, ou ainda sentindo o efeito residual de quem teve filho aos 33, 35, 38.

O resultado disso está nos números: mulheres ocupam 32,2% dos cargos de liderança no Brasil, segundo o relatório “State of Women in Leadership” do LinkedIn, divulgado em 2026. E somente 3,6% dos cargos de CEO são ocupados por nós, número que caiu em relação ao ano anterior.

Outra coisa que me chocou foi saber que 94,8% das profissionais nunca foram promovidas durante a gravidez ou a licença-maternidade (dados da Catho). Isso não é coincidência, é o retrato de como maternidade e carreira colidem bem na década que deveria ser de ascensão.

O que eu decidi fazer com essa conta

Eu tenho 42 anos. Tenho dois filhos, o Bernardo e o Benjamin, e sou CEO da Dash há quase vinte anos, construindo o mesmo negócio que meu avô e meu pai começaram.

Estou, goste eu ou não, bem no meio dessa década decisiva de que os números falam. E ali no táxi, com o coração partido, eu não fiquei pensando em quanto essa viagem ia me custar de culpa. Fiquei pensando em outra coisa, e falei isso pro Bernardo antes de sair: que eu sou uma mãe melhor porque gosto do meu trabalho, porque acredito no que faço, porque viajo pela Dash. E isso faz parte da minha realização.

Não decidi ter meus filhos mais cedo ou mais tarde pensando em blindar carreira. E hoje eu vejo que não faria diferença se tivesse decidido, porque a conta ia chegar de um jeito ou de outro, numa década ou noutra.

Acho que o ponto não é escolher quando pagar a conta entre maternidade e carreira (porque ela vai chegar de qualquer jeito), mas o que eu faço enquanto pago. Se um dia meus filhos perguntarem se eu abri mão de alguma coisa por conta deles, a resposta vai ser não. Eu fui atrás do que eu queria com eles do meu lado o tempo inteiro.

Pra mim, a maternidade é isto: ser apoio, mas principalmente, ser exemplo.

E, claro, sei o quanto minha a maternidade é privilegiada, pois nem todas as mulheres terão as mesmas possibilidades de escolha na hora de encaixar filhos e carreira. Então, como CEO, uma das minhas contribuições é abrir caminhos pra que mais mulheres tenham poder de escolha.

Marcela Ohana – CEO e Diretora Criativa na Dash Uniformes