Dados mostram um consumidor com mais renda, mais critério e menos representação nas estratégias das empresas.
No Brasil, 59 milhões de pessoas têm 50 anos ou mais. É 27% da população e essa fatia movimenta cerca de R$ 1,8 trilhão a R$ 2 trilhões por ano, o equivalente a 23% de todo o consumo de bens e serviços do país, segundo dados da Data8. No mundo, a chamada silver economy já é a terceira maior atividade econômica do planeta, à frente de setores inteiros que dominam os relatórios de tendência.
Esses números por si só já justificariam atenção. Mas o que me interessa como executiva de finanças e transformação digital não é o tamanho do mercado. É o que ele revela sobre onde as empresas estão perdendo dinheiro por miopia estratégica.
Um consumidor com capital e critério
O consumo per capita mensal da geração prateada é 38% maior do que o da população abaixo dos 50 anos. Dados da FGV mostram que pessoas com mais de 65 anos representam 17% do grupo dos 5% mais ricos do Brasil.
E uma pesquisa do SPC identificou que 41% desse público gasta mais com produtos de desejo do que com itens de necessidade básica. Para 66% deles, aproveitar a vida é prioridade declarada. Isso não é um consumidor cauteloso e reativo. É um consumidor com capital e disposição para gastar bem.
Ainda assim, 65% dessas pessoas afirmam que as marcas não estão adaptadas às suas necessidades e 52% relatam dificuldade para encontrar produtos que realmente desejam, segundo levantamento da FleishmanHillard.
Há aqui um descompasso claro entre demanda comprovada e oferta mal desenhada e todo descompasso de mercado é, antes de tudo, uma oportunidade para quem chegar primeiro.
O digital já não é uma barreira para a geração prateada
Existe também uma barreira mental que precisa ser desfeita: a ideia de que esse público está fora do digital. Não está.
Estudos do Sebrae apontam que 92% das pessoas com mais de 50 anos acessam a internet, e sete em cada dez compram por canais digitais pelo menos uma vez por mês. O Brasil é o terceiro maior consumidor de redes sociais do mundo e esse comportamento atravessa gerações.
É falsa a premissa de que os 50+ não têm familiaridade com a tecnologia. Eles estão conectados, o que falta são estratégias de dados, produto e comunicação desenhadas para esse consumidor específico.
Uma curva que ainda vai acelerar

Em 2044, o Brasil terá 92 milhões de pessoas com 50 anos ou mais, o equivalente a 40% da população e a economia prateada deve saltar para R$ 3,8 trilhões ou 35% de todo o consumo domiciliar privado do país.
Quem estrutura sua operação, seu portfólio e sua régua de dados para esse público agora entra num ciclo de crescimento que ainda está longe do topo. Setores como saúde, bem-estar, viagens, moradia adaptada e serviços financeiros personalizados já sentem esse avanço hoje.
Tratar a geração prateada como tendência lateral é um erro de leitura financeira, não apenas de marketing. É ignorar um público com renda comprovada, recorrente e mais alta que a média.
Pensar nos 50+ é estratégia de gestão, não de inclusão
As empresas que vão liderar essa década precisam entender que envelhecer, no Brasil de hoje, é sinônimo de poder de compra, presença digital e clareza sobre o que se quer consumir.
O mercado que constrói para esse consumidor com respeito e inteligência de dados não está fazendo inclusão social. Está fazendo boa gestão.
Ana Paula Wirthmann
CEO da Omni11 | Conselheira | Especialista em Transformação Digital e Finanças