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O que sobra quando a moda passa? Anna Shin, CEO da Wishin, conta como um lote de tênis encalhado revelou o que faz algo realmente permanecer

Anna Shin, CEO da Wishin

O que faz um par de sapatos permanecer atual?

Por meses, houve um lote inteiro de tênis empilhado embaixo da minha mesa de trabalho. Cada vez que eu me sentava, lá estava a pilha, me encarando. Aqueles tênis eram tudo o que o mercado dizia que uma marca precisava ter naquele momento, e foram o maior fracasso comercial que eu já vivi.

O modelo era um tênis de salto embutido, inspirado no lançamento da grife francesa Isabel Marant, que virou febre no Brasil. Havia uma urgência quase física no ar, a sensação de que, sem aquele produto, você estava fora do jogo.

Nós decidimos entrar nele. Desenvolvemos o modelo, produzimos o primeiro lote de teste e colocamos na loja confiando que seria um sucesso. Mas não vendemos um par sequer.

Faço calçados desde 2011, quando fundei a Wishin ao lado da minha irmã, vendendo vinte pares por mês. Hoje a marca produz quase 200 mil pares por ano e calça mulheres de todas as idades pelo país. Mas foi ali, olhando todo dia para aquele erro caro, que aprendi o que a Wishin de fato viria a ser.

Loja Wishin no Shopping Morumbi, em São Paulo

Por que corremos atrás do que nunca alcançamos

O sociólogo alemão Georg Simmel explicou o que havia acontecido comigo quase um século antes de eu nascer. Em 1904, ele descreveu a moda como um movimento de imitação e distinção: as camadas de maior prestígio adotam um estilo, as demais correm para copiá-lo, e no instante exato em que a cópia se generaliza, o topo abandona aquilo e parte para outra coisa.

Quem persegue tendência está sempre chegando atrasado a uma festa que já terminou.

A mulher que escolhe a Wishin nunca esteve nessa corrida. Uma cliente antiga certa vez me disse, quase brincando, que sabia adivinhar quais modelos entrariam em liquidação: eram sempre os que destoavam, os que pareciam feitos por outra marca. Ela estava certa, e sua observação valia mais do que qualquer pesquisa que eu pudesse ter encomendado.

“Existe uma linha muito fina entre acompanhar o que está no ar e trair aquilo que você é.”

O tempo das coisas que permanecem

De lá para cá, o cenário só se acelerou. O vídeo curto comprimiu os ciclos de moda a ponto de as microtendências nascerem e morrerem no intervalo de semanas, e nenhuma marca que dependa de mãos e de fábrica consegue correr nessa velocidade.

A boa notícia é que a nossa cliente nunca esteve neste lugar.

Ela é, quase sempre, uma mulher que já sabe do que gosta. Descobriu o que lhe cai bem, o que é confortável, o que cabe na vida que ela realmente leva, e não sente vontade de recomeçar do zero a cada estação.

Há uma maturidade nesse tipo de escolha que eu admiro profundamente, e que se tornou o coração da marca: peças produzidas no Brasil que seguem entre as mais vendidas quase uma década depois de criadas porque nunca dependeram de estar na moda para fazer sentido.

Clientes interagindo em loja da Wishin

O que significa ser atemporal

Atemporalidade não é imunidade ao tempo. É ter um critério próprio de permanência, sabendo o que merece ficar mesmo quando tudo ao redor muda.

Continuo estudando tendência, continuo lendo o mercado. O que mudou foi a pergunta que faço diante de cada decisão. Antes era se todo mundo estava usando. Hoje é se aquilo tem a ver com quem a gente é.

Depois dos quarenta, principalmente, a vida começa a pedir esse tipo de discernimento em quase tudo: quais hábitos manter, quais relações preservar, o que ainda nos representa e o que só continua ali por hábito ou por medo de largar.

A Wishin, no fundo, nasceu de uma noite em que minha irmã e eu trocamos o salto pelo tênis para conseguir dançar numa rave, e eu pensei que nunca mais queria sofrer para me sentir bonita. Levei anos e um lote encalhado embaixo da mesa para entender que aquela intuição de menina já sabia tudo.

“O que permanece raramente é o que grita mais alto. Mas o que, sem alarde, sempre teve a ver com a gente.”

Anna Shin

A Viragem trabalha com fundadores e executivos em transições de carreira depois dos 40. Se esse texto fez sentido para onde você está agora, entre em contato.