Me restam 11 mil dias de vida. Já vivi mais que a metade de minha expectativa de vida – mais que meus avós, provavelmente mais que meus pais e certamente menos que meus filhos. Parece muito, mas não é. Marquei a data de minha morte para 5 de outubro de 2057. Terei 92 anos – uma vida bem vivida, acredito. Falta um pouco ainda. Tenho pressa.
Tive uma vida mais infeliz que feliz, até aqui.
Uma vida muito interessante.
– Tive quase todas as verminoses possíveis. Caxumba, catapora, rubéola.
– Tomei vacina de pistola no braço.
-Pesei 65 e 135 quilos.
-Vivi no mato, na metrópole, no interior, no exterior.
– Estava perto quando Chernobyl explodiu.
– Assisti Nina Hagen ao vivo.
– Testemunhei a última troca de espiões em Berlim Ocidental mas não vi o muro cair.
Comecei muita coisa, terminei poucas.
Ensaiava muito e concluía pouco. Sou um aluno lento no aprendizado. As poucas conclusões valeram muito a pena: Pedro e Ana meus filhos. Um curso superior completo na FGV, mesmo que tenha feito fora de época, um negócio bem sucedido, mesmo que de vez em quando.
Um amigo dizia que seu pai, já velho, afirmava no final de sua vida: “Posso morrer, mas morro atirando”. Sou desses, morro atirando, não desisto. Viver é persistir, tentar o máximo possível para criar um sentido. Se me destaquei em algo, garanto que gastei mais tempo que o normal para alcançar o resultado. Para as redes, não mostro. Para quem chega perto: calos, rugas, cansaço. Marcas de teimoso.
É dessa persistência de que falo.
Tivesse eu tido testemunhos de outros persistentes, teria aceito mais cedo que uma vida interessante é melhor que uma vida feliz. Teria aceito mais facilmente as dores e sofrimentos do crescimento, do aprendizado. Um dia um aluno me perguntou: “aprendemos só na dor?” e respondi que, de mais de mil pessoas que conheci, foram muito poucos, cabe nos dedos de uma mão, que deram o testemunho de crescer pelo amor.

Me sinto um estrangeiro quase que permanentemente.
Em minha família de nascimento, a sensação de imigrante ilegal. Quando penso a qual geração eu pertenço, tenho um pé nos “baby boomers” e outro na geração X – não pertenço a nenhuma. Mesmo brasileiro de nascença, não jogo futebol e não gosto de pagode, sou branquelo demais. Na academia, gordo demais. Nas pistas de dança, desajeitado. Nas classes em que estudei, ou era mais velho, ou mais novo, ou mais burro, ou mais trouxa. Sou estrangeiro em quase todos os espaços, em quase todos os tempos, em quase todos os grupos.
O estrangeiro vive de estranhar, de sentir-se deslocado e, por conta disso, de experimentar tudo antes de entender. Come sem perguntar, senão não comeria. Depois de comer quer saber tudo. Experimenta para depois entender. Vive e depois reflete. O estrangeiro caminha, aceita o misterioso quase que por imposição. O não dito sempre o acompanha.
E depois de se “acostumar” com o estranho, ele se surpreende quando encontra a si mesmo nos outros.
Quem escreve aqui é o estrangeiro que se surpreende ao encontrar a si mesmo nos outros.