Dez anos após deixar a docência, Iara Dietrich recomeçou aos 51 com uma franquia vazia e um ponto para reformar. Hoje, aos 62, a escola cresce e mira R$ 2 milhões em 2025
Aos 51, quando muita gente começa a negociar com a ideia de “ir diminuindo o ritmo”, Iara Dietrich fez o movimento inverso: puxou o fio da própria história de volta para a educação.
Depois de 10 anos em um trabalho que não tinha nada a ver com seu caminho anterior, ela deu ouvidos a uma sensação incômoda — que a avisava que estava ficando longe demais de si mesma.
Iara tinha sido professora por muito tempo, mas com a morte do seu marido e três filhos para cuidar, decidiu assumir o comércio da família. Sua rotina virou vendas, metas e um tipo de pragmatismo que não conversava com sua vocação. Ela seguiu adiante, porque era o que a vida pedia naquele momento.
Por anos, ela acreditou que o desvio era definitivo.
Que a educação tinha ficado num passado simpático, mas encerrado. Até que uma oportunidade de ser franqueada de uma escola de idiomas apareceu. O susto veio antes do entusiasmo.
"Ela se perguntava: será que ainda sei ser quem eu era?"
Às vezes, a gente só entende o quanto desviou quando tenta voltar. Recomeços têm essa textura esquisita. Não chegam embrulhados, nem obedecem horário comercial. Mas chegam, e às vezes o que resta é encarar.
Com 400 mil reais investidos, um ponto para reformar e zero alunos, ela inaugurou a escola em Cascavel. A primeira matrícula foi da irmã — o tipo de gesto que só família entende: mistura de apoio, torcida e uma piscadela silenciosa dizendo “vai!”.
De junho a dezembro daquele primeiro ano, vieram 75 alunos. Um efeito dominó movido por indicações, conversa boca a boca e aquele entusiasmo cauteloso de quem percebe que talvez tenha acertado a rota.
A partir daí, a escola virou uma espécie de projeto familiar. Maria Clara, a filha mais velha, entrou na operação e, em nove meses, levaram a unidade ao ponto de equilíbrio. Hoje, a escola conta com quase 500 alunos e 10 professores.

Não foi uma jornada fácil. Na pandemia, enquanto o chão das escolas desmoronava, ela persistiu e decidiu se adaptar. A metodologia digital da franquia já existia, e a unidade não ficou nem dois dias parada. Criaram aulas ao vivo, ajustaram horários, seguraram o emocional dos alunos e, num período em que quase todo mundo encolhia, eles cresceram 25%.
Hoje, aos 62, Iara segue à frente da escola com a calma de quem sabe que a idade não limita, apenas organiza prioridades. E a dela é clara: ver gente aprendendo, abrindo mundos, ganhando voz em outros idiomas. É ali que ela se reconhece.
Seu negócio projeta faturar 2 milhões de reais neste ano.
Mas, quando ela fala do que realmente importa, a conversa muda de tom: “Minha alegria ainda é ver o brilho nos olhos quando os alunos percebem que são capazes.”
Talvez seja isso que ninguém conta sobre os recomeços depois dos 40, 50, 60: não exigem uma coragem extraordinária. Eles pedem, sim, aquele gesto íntimo de voltar para o lugar onde a vida faz sentido — mesmo quando isso implica começar do zero numa idade que o mundo insiste em chamar de tarde.
E se tarde, para alguns, for exatamente o horário perfeito?
Foto: LinkedIn Iara Dietrich