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O desconhecido não me assusta: como pratico lifelong learning depois dos 40

Retrato de Carol Pengo, executiva do setor de saúde, sentada à mesa de madeira, olhando para o lado com expressão serena.

Carol Pengo, CVO da Biomecânica, conta como aprender sem medo do desconhecido moldou cada virada da sua trajetória

Aos poucos vinte e poucos anos, larguei um cargo estável de arquiteta em São Paulo pra virar estagiária na fábrica do meu pai, sem saber nada sobre produção, gestão ou ortopedia. O plano era ficar só um ano. Isso foi há quase duas décadas.

Hoje chamo essa disposição de lifelong learning: a ideia de continuar aprendendo ao longo de toda a vida, sem esperar diploma ou crise nenhuma pra começar. Foi essa mentalidade que me permitiu fazer a virada da minha vida, de arquiteta a CEO, e hoje CVO de uma das maiores indústrias de implantes ortopédicos do Brasil, a Biomecânica.

Da arquitetura hospitalar à indústria da saúde

Estudei arquitetura porque sempre fui apaixonada por arte, por desenho, pela sensação de começar algo do zero. No primeiro ano da faculdade, descobri a arquitetura hospitalar e me apaixonei.

Passei alguns anos desenhando ambientes pensados pra acolher pacientes em recuperação, pensando em luz, em circulação, em conforto pra quem estava ali passando por um momento difícil. Cheguei a trabalhar num grande escritório de referência. Mas não me sentia satisfeita.

Passar meus dias fazendo planta de residência e entregando o mesmo tipo de projeto repetidamente não me alimentava. Eu precisava sentir que estava evoluindo, e aquela rotina não me dava isso.

Foi essa inquietação que me fez pedir um ano sabático do escritório e ir estagiar na Biomecânica, a empresa do meu pai. A Biomecânica foi uma das primeiras empresas do Brasil a fabricar cimento ortopédico e meu pai é um dos pioneiros da ortopedia no país.

Fui aprender do zero, numa área que não tinha relação nenhuma com minha formação e achei ali uma folha em branco ainda maior do que qualquer projeto de arquitetura. Foi por isso que fiquei.

Uma característica que vai além do trabalho

Esse mesmo apetite por aprender coisa nova, aliás, nunca ficou restrito ao trabalho.

Sempre fui de fazer curso por pura curiosidade, sem pensar em currículo ou em carreira. Adoro yoga, então fiz a formação pra virar professora. Os óleos essenciais me fascinam, então fiz curso de aromaterapia. Teve até uma fase de radiestesia, só porque aquilo despertou minha curiosidade e eu queria entender do que se tratava.

Assim, em qualquer intervalo do dia, secando o cabelo, esperando um voo, estou aprendendo alguma coisa nova. Tenho quase uma necessidade de manter minha mente em movimento o tempo todo, dentro ou fora do trabalho.

O dia em que a sucessão começou

Os anos foram passando e eu me vi envolvida e fascinada pelo mundo da gestão. Até que vivemos um dos momentos mais difíceis da história da empresa.

Fomos alvo de uma auditoria que fechou uma linha inteira de produção, no mesmo período em que perdi meus avós. Lembro do dia em que entrei na sala do meu pai e o encontrei sentado, cabeça baixa, os olhos marejados. Ele levantou o olhar e disse que não sabia mais o que fazer, que faria o que eu quisesse porque estava sem saída.

Eu tinha vinte e seis anos e nenhuma formação pra estar ali. Falei que a gente ia lutar pela empresa até o último dia, que se um dia tivéssemos que fechar a porta, eu seria a última a sair. Foi naquele dia, com meu pai chorando na minha frente, que entendi que a sucessão tinha começado, muito antes de qualquer cargo formal.

Dali em diante, aprender deixou de ser hobby. Não sabia nada de finanças, por exemplo, e de repente precisava entender balanço, fluxo de caixa, decisão de investimento. Fiz o que sempre fiz desde a arquitetura: aceitei que não sabia, fui atrás de quem sabia mais do que eu e estudei, estudei, estudei.

De arquiteta a CVO

Hoje ocupo o cargo de CVO (Chief Visionary Officer, ou diretora visionária), uma função que nem existia antes e que fui desenhando enquanto a exercia. É curioso pensar que, como arquiteta, eu desenhava o espaço onde o paciente ia se recuperar. Hoje, meu trabalho é abrir caminho pra que a tecnologia que ajuda nessa recuperação, como o robô cirúrgico que desenvolvemos pra cirurgias de quadril e joelho, chegue até esse paciente, seja pela porta de um hospital privado ou pela porta do SUS. Mudou o formato do meu trabalho, mas o motivo continua o mesmo.

Carol Pengo sorri para a câmera enquanto exibe, entre as mãos, um implante ortopédico de metal.

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O que os dados mostram sobre lifelong learning depois dos 40

Percebo que não sou exceção nessa necessidade de continuar aprendendo e os números mostram que a tecnologia e a automação estão cobrando isso de muita gente, não só de mim.

O Observatório Nacional da Indústria estima que o Brasil vai precisar qualificar ou requalificar cerca de 14 milhões de trabalhadores num curto espaço de tempo. É uma cifra que dá a dimensão de quanta gente vai passar, em algum momento, pela mesma sensação que eu tive quando entrei numa área que eu não dominava.

A Gupy, plataforma de recrutamento, aponta a aprendizagem contínua e as carreiras não lineares como parte do que hoje define relevância profissional num cenário de transformação tão rápida. A headhunter Paula Pedrosa reforça esse ponto numa coluna no Jornal do Commercio, dizendo que o diploma, o cargo atual e o tempo de experiência perdem peso diante da capacidade de continuar aprendendo.

Sinto isso na pele. Nenhum dos cargos que ocupei veio com manual de instruções. Fui aprendendo a ser estagiária, sucessora, CEO e hoje CVO no ritmo em que a vida foi me cobrando.

E se hoje olho pra trás e entendo alguma coisa sobre mim mesma, é que o desconhecido nunca foi barreira. Sempre foi meu combustível para seguir.

Carol Pengo é CVO (Chief Vision Officer) e membro do conselho da Biomecânica, indústria brasileira de implantes ortopédicos. Arquiteta de formação, foi CEO da empresa e hoje atua em alianças estratégicas, vendas e inovação.